Ênfase na utilidade da Ciência pode fazer com que faltem as ferramentas no momento em que mais precisarmos dela

Há um discurso muito perigoso sobre a Ciência se consolidando no Brasil, que é preciso identificar e questionar antes que seja tarde. No contexto de crise – de financiamento e, também, da confiança no conhecimento científico –, aumenta a demanda por ações que demonstrem a importância da pesquisa nas diferentes áreas junto à sociedade. O perigoso é que esse clamor, legítimo, seja apropriado por uma visão demasiadamente utilitarista da Ciência e, mais do que isso, que entende somente o retorno financeiro imediato como resultado a ser considerado.

A cobrança é de tal natureza que, por esses dias, ouvi responsáveis por pesquisas e projetos de intervenção que já transformaram a trajetória educacional e, assim, a vida de milhares de crianças, jovens, suas famílias e seus educadores, questionarem se o seu trabalho “serve para alguma coisa”, diante de métricas de impacto que veem apenas as empresas como interface de comunicação entre a prática acadêmica e a sociedade. Na mídia, reportagem da BBC Brasil sobre o Programa Antártico Brasileiro (Proantar) também chamou a minha atenção, devido principalmente à linguagem empregada pelos cientistas entrevistados para falar da importância da pesquisa no continente gelado. Abordando a biodiversidade rica, única e pouco conhecida da Antártida, falam em microrganismos que são verdadeiras fábricas produtoras de “substâncias de interesse em processos biotecnológicos” e têm “grande potencial para contribuir com o setor produtivo do Brasil”. Falando do papel da Antártida na regulação do clima em todo o mundo, destacam a possibilidade de melhorar a previsão do tempo no Brasil e, assim, aumentar a produtividade agrícola e diminuir o custo social de desastres climáticos. E, por fim, ressaltam a existência de grande reserva de água potável e de riquezas minerais como razões para estar lá.

Nenhum problema em buscarmos concretizar ganhos da atividade científica próximos do cotidiano das pessoas, como estratégia para aproximá-las do fazer científico. No entanto, em excesso, essa busca por produtos da prática científica pode fazer com que deixemos de nos admirar, espantar e querer saber mais só pela curiosidade diante deste vasto mundo. Afinal, o que será de nós se um continente gelado com 14 milhões de quilômetros quadrados, um complexo ecossistema adaptado àquelas condições extremas e testemunhos da vida no Planeta há milhares e milhares de anos não mais forem o suficiente para nos encantar e intrigar? Se somente o valor econômico ou algum benefício direto puderem nos mobilizar?

Além disso, qualquer aplicação da Ciência pressupõe a existência de conhecimento que possa ser aplicado. No final de 2015, identificou-se no Brasil a circulação de um novo vírus, o Zika, e sua associação com o nascimento de crianças com microcefalia. Apenas quatro anos depois, é admirável o conhecimento acumulado sobre o vírus, as consequências que provoca, como preveni-las e, também, como apoiar e atender mães e crianças afetadas. E novas descobertas não param de acontecer. Nos últimos dias, por exemplo, circularam as notícias sobre evidências de que a infecção pelo Zika resulta em imunidade e, mais espantoso, de que o vírus é uma esperança no tratamento de tumores cancerígenos que afetam o sistema nervoso central! Se, nas décadas que antecederam a epidemia, não houvesse dezenas, talvez centenas de pesquisadores produzindo conhecimento sobre aspectos fundamentais do funcionamento do corpo humano, outros vírus, sobre as células cerebrais, dentre inúmeros outros tópicos de Ciência básica, provavelmente estaríamos até hoje sem sequer saber que mal nos afligia, que dirá como combatê-lo! Se esses mesmos pesquisadores não estivessem, ao mesmo tempo, formando novos cientistas, graduados, mestres e doutores, não só teríamos um presente muito mais difícil que aquele em que estamos vivendo, mas seriam aterrorizantes nossas previsões para o futuro.

Em um artigo intitulado “Sobre a utilidade do conhecimento inútil”, publicado em 2017, o químico alemão Helmut Schwarz afirma que grandes avanços são fruto de uma combinação entre criatividade, inteligência, curiosidade, perseverança e acaso, e que as pessoas, especialmente jovens, precisam de “espaço, liberdade e confiança para serem capazes de desenvolver todo seu potencial” e, assim, terem “a coragem de correr o risco e tornar descobertas possíveis”. Ao destacar a centralidade da Ciência básica – espécie de caixa de ferramentas gigante onde escolhemos a que melhor nos serve em cada momento –, Schwarz também reconhece que não é fácil explicar por que ela exige tempo e investimento, e que esta dificuldade a deixa vulnerável.

No entanto, fazer de conta que a pesquisa fundamental não existe e falar somente de aplicações no momento de divulgar a Ciência não diminuirá essa vulnerabilidade, aumentando o apoio ao trabalho de cientistas. Pode ser que só estejamos jogando a sujeira para debaixo do tapete, angariando apoio para aquilo que já é valorizado – ou será que alguém é contra encontrar soluções para uma doença incurável ou para combater a escassez de alimentos? – e deixando erodir a base indispensável ao enfrentamento de problemas que, hoje, ainda sequer sabemos que existem.

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Sobre o Autor

Mariana Pezzo
Coordenadora Geral
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Mariana Pezzo possui graduação em Bacharelado em Comunicação Social - Jornalismo pela Universidade de São Paulo. Mestre e Doutora em Educação pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Foi Diretora de Comunicação Social da UFSCar e da Rádio UFSCar de 2001 a 2010. Foi Assessora de Comunicação da Reitoria da UFSCar e atualmente exerce a função de Coordenadora Executiva do LAbI.

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