Composto alimentar, alimento granulado, alimento reprocessado, para o Estadão. Granulado nutricional, suplemento com alimentos perto do vencimento, complemento alimentar, para o G1. Farinata e comida de astronauta, para a Folha. Ração, para Brasil 247, Huffington Post, Viomundo e Revista Fórum, dentre outros veículos semelhantes.

A cobertura do anúncio feito no final da semana passada pelo Prefeito de São Paulo, João Dória, de um novo programa de alimentação para o Município, é um caso exemplar de como a escolha das palavras é importante, e em geral não é feita ao acaso quando se trata de compor as manchetes dos jornais. Chamar de ração o produto sem cor, sabor e textura de comida, feito de alimentos fora dos padrões para venda em supermercados e próximos à data do vencimento, que Dória afirmou ser a sua mais nova estratégia para alimentar a população mais pobre, resume em cinco letras toda a crítica que é detalhada e justificada depois. Já falar em composto alimentar, farinata e comida de astronauta – esta última, alcunha dada pelo próprio Dória à sua ração – reduz significativamente a polêmica envolvida e dá um verniz quase “científico” ao produto.

A Ciência, a propósito, perdeu mais uma oportunidade importante de ganhar visibilidade e evidenciar as contribuições que pode dar ao debate e à formulação de políticas públicas. Primeiro, porque a própria existência da farinata é fruto do trabalho em Ciência e Tecnologia – o que, por um lado, é positivo, quando pensamos na alimentação emergencial de vítimas de catástrofes e, por outro, demanda cautela, para que a imagem não seja a de uma Ciência que, como fez o Prefeito, reduz a alimentação à nutrição. Dória, aliás, fez questão de dizer que o produto foi desenvolvido por cientistas e tem o “respaldo” de universidades, o que reforça essa necessidade de atenção aos modos como a Ciência é invocada e apresentada à arena pública.

Mas, o que mais me chamou a atenção, foi a quase total ausência de vozes da Ciência no debate que se seguiu ao anúncio de Dória. Tivemos nota do Conselho Regional de Nutrição, criticando a estratégia de Dória e citando referências como o “Guia Alimentar para a população brasileira” para falar, principalmente, do caráter ultraprocessado da farinata e da recomendação vigente de que sejam priorizados os alimentos in natura. Este também foi o aspecto destacado por nutricionista e pesquisadora da USP citada no Brasil de Fato. Além dela, tivemos Daniel Bandoni, nutricionista da Unifesp que, no G1, abordou principalmente a questão cultural do ato de comer. E só. (Bandoni até teve a companhia de outras profissionais da área da Nutrição, mas, aparentemente, não envolvidas em pesquisa.)

Há vários aspectos que poderiam ter sido abordados a partir de pontos de vista que não os de Dória e da empresa responsável pelo produto, como a questão de redução do desperdício de alimentos e a segurança (ou não) do uso de alimentos perto da data de vencimento. No entanto, mesmo considerando esses aspectos, a mim parece que os pontos principais são aqueles destacados e tratados em profundidade na Carta Capital: as diferenças entre um contexto de crise humanitária e a definição de políticas públicas para uma cidade como São Paulo; a redução do ato de comer a uma necessidade fisiológica, e não um ritual social e cultural “essencial à cidadania”; e, assim, a limitação dos pobres ao “império absoluto do corpo”.

Já que falamos de alimentação, minhas dicas de leitura são de outros textos sobre o assunto publicados nos últimos dias. O The New York Times publicou – e a Folha republicou, na versão em Português – artigo falando de estudos que mostram como uma dieta vegetariana não é, obrigatoriamente, melhor para a sua saúde. Outro texto, na Agência Fapesp, apresenta pesquisas realizadas por brasileiros sobre a relação entre o sistema nervoso e o nosso comportamento alimentar. Este último pode causar uma certa angústia, pela complexidade de compreendermos este que é um ato tão básico do nosso dia a dia: o ato de comer. Por isso, como já falamos aqui antes, a regra do equilíbrio e do bom senso continua fazendo todo sentido!

Boas leituras, refeições, e uma ótima semana!

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