Rede de pesquisa sobre queijos artesanais ajuda a pensar sobre como aproximar as pessoas da Ciência

No próximo domingo, dia 8 de julho, serão comemorados o Dia Nacional da Ciência e o Dia Nacional do Pesquisador e, neste ano, também os 70 anos da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). A celebração da data – prevista para se estender ao longo de todo o mês de julho –, mais do que festa, será marcada por novos alertas e mais reivindicações pela recuperação dos investimentos em Ciência, Tecnologia, Inovação e Educação, sem as quais, reiteram os cientistas, o futuro do País está ameaçado.

Dentre os eventos programados, a Avenida Paulista, em São Paulo, terá nova edição da Marcha pela Ciência e, como nas edições anteriores, eu também me repito no alerta de que precisamos de mais do que eventos pontuais para criar familiaridade das pessoas com a Ciência e, assim, engajá-las na defesa não só da prática, mas também do conhecimento científico. E, para ilustrar este meu alerta, aproveito desta vez acontecimentos recentes envolvendo a produção artesanal de queijo no Brasil.

Em setembro do ano passado, foi quase impossível ficar alheio à polêmica suscitada pela apreensão de 160 quilos de queijo e linguiças artesanais do estande da famosa chef Roberta Sudbrack no Rock in Rio. O episódio deu visibilidade aos debates sobre uma legislação velha e ineficiente para a comercialização de produtos de origem animal feitos artesanalmente e, de outro lado, sobre a necessidade de garantir a segurança alimentar ao longo de toda a cadeia de produção dessas iguarias. Uma verdadeira novela, que chegou a um capítulo feliz no dia 15 de junho, quando foi sancionada lei que desburocratiza a comercialização, bastante comemorada pela própria Roberta Sudbrack, junto com outros expoentes da gastronomia nacional.

Porém, não podemos falar ainda em final feliz.

A nova lei é, de fato, uma vitória para os produtores já adequados às exigências sanitárias para obtenção dos certificados estaduais que permitem a comercialização. Esta não é, no entanto, a realidade de muitos outros, e há inclusive uma discussão sobre essas exigências serem mais rigorosas do que o necessário, inviabilizando assim o atendimento por boa parte das queijarias artesanais.

E o que a Ciência tem a ver com toda essa história? Aparentemente, a partir das narrativas sobre a polêmica na mídia brasileira, nada. No entanto, a Agência Fapesp noticiou há alguns dias a criação da Rede de Pesquisa em Queijos Artesanais Brasileiros, voltada justamente à integração de pesquisadores brasileiros que atuam na área. A iniciativa partiu do Centro de Pesquisa em Alimentos (FoRC, da sigla em Inglês), que trabalha com produtores da Serra da Canastra em questões envolvendo o tempo de maturação dos queijos, testes de adequação sanitária e indicadores de qualidade que possam aprimorar cada vez mais os processos de produção. Questões bastante semelhantes são abordadas também por pesquisadores da UFSCar, mas no trabalho com o queijo Porungo, tradicional da região onde está o Campus Lagoa do Sino da Universidade (como eu tive a oportunidade de reportar). E várias outras iniciativas como estas devem existir, agora com potencial de se fortalecerem pela integração na Rede.

Por enquanto, a notícia saiu só na Agência Fapesp, com um público, comparativamente, bastante restrito. Minha ponderação é que ela, por exemplo, poderia ter ganhado as páginas e cadernos de gastronomia dos grandes jornais, como aconteceu com a polêmica – e as conquistas – envolvendo o queijo e outros produtos artesanais. Com isso, a pesquisa científica poderia ter se aproximado um pouquinho mais do cotidiano dos leitores desses cadernos, apaixonados por gastronomia, cozinheiras e cozinheiros, gulosos ou apenas curiosos, potenciais admiradores também da Ciência produzida por aqui.

Em outubro, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia voltará a acontecer, neste ano com o tema “Ciência para a Redução das Desigualdades”. Este é também um evento que, apesar da relevância que vem ganhando ano a ano, precisa ser compreendido como ação necessária, mas não suficiente para consolidar a cultura científica no Brasil. Minha sugestão – se alguém nas redações passar por aqui – é que, até lá (e depois também!), busquemos e priorizemos pautas que, como a do queijo, concretizem a afirmação, tão alardeada nas Marchas pela Ciência por aí, de que Ciência e Tecnologia são importantes para o futuro do Brasil e, sobretudo, das pessoas que vivem em todos os cantos do nosso país.

Boa semana, parabéns à SBPC, e que seja muito frutífero este Dia Nacional da Ciência!

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