Diretrizes nutricionais polêmicas alertam cientistas e agitam a mídia

No dia 30 de setembro, uma nova edição do periódico científico Annals of Internal Medicine chegou com material explosivo: um conjunto de estudos de revisão sistemática de pesquisas anteriores sobre o consumo de carne vermelha, acompanhado de novas diretrizes alimentares que minimizam os riscos de comer carne para a nossa saúde. As recomendações rapidamente receberam críticas contundentes de especialistas em vários países, e um grupo deles inclusive já pediu à revista que aguarde uma nova revisão, alertando para potenciais danos. A mídia, no entanto, não espera, e o assunto rapidamente virou destaque em todo o mundo.

No Brasil, as manchetes vieram em menor número do que eu esperava, geralmente acompanhadas de matérias traduzidas do Inglês, de agências de notícias. Algumas delas trazem grandes problemas, como a do Metrópoles, afirmando que: “Pesquisa indica que consumo de carne vermelha não causa câncer”. Isto não é verdade, já que a conclusão é tão somente que as evidências associando o consumo elevado a maiores riscos de câncer e outros problemas são de baixa qualidade, e que, se há alguma associação, ela é baixa. O Globo foi um pouco mais cuidadoso, registrando que: “Estudo que ‘isenta’ carne vermelha de malefícios à saúde gera críticas entre especialistas”. Como polêmica e controvérsia são o combustível da imprensa e o ser humano tende a se apegar àquilo que confirma o que ele quer acreditar, a minha aposta é que já há churrascos de comemoração acontecendo por aí, com muita gente repetindo “eu sabia, era tudo uma conspiração de grandes corporações capitalistas associadas a ONGs que querem entregar a Amazônia aos estrangeiros” ou “esses cientistas realmente não sabem o que querem e a Ciência não serve mesmo para nada, cada hora diz uma coisa diferente, eu vou é curtir a minha picanha antes de morrer”.

Um primeiro ponto destacado pelos críticos às novas diretrizes é que, embora os estudos publicados agora não tragam grandes novidades em termos de evidências, a conclusão tirada dessas evidências é oposta às que estavam mais estabelecidas, com mensagem que pode ser interpretada como liberação para continuarmos comendo quanta carne quisermos. Além disso, os pesquisadores alertam para uma distinção importante entre impactos sobre indivíduos e sobre populações, reafirmando que as evidências apontam para riscos significativos em termos populacionais e, assim, de saúde pública, que justificam a recomendação para reduzir o consumo de carne. Compreender a sofisticação estatística por trás desse debate não é trivial, e me parece irresponsável falar publicamente em “evidências fracas” quando se sabe que o público não entende o “fracas” da mesma forma que os autores dos estudos.

O que significa, afinal, falarmos que não há boas evidências? Um cientificismo exacerbado que, guardadas as devidas proporções, em alguns círculos parece estar tão na moda quanto a negação do conhecimento científico, muitas vezes trata limitações derivadas da própria natureza daquilo que se estuda como se fosse má qualidade ou, pior, negligência. Uma pesquisadora da Universidade de Cambridge, Nita Forouhi, por exemplo, destaca que estudos clínicos controlados como os que são reivindicados pelos autores das novas recomendações são praticamente impossíveis de serem feitos no caso de dietas, e conclui, invocando o princípio da precaução: “Considerando que a melhor evidência disponível aponta um benefício modesto de reduzir o consumo de carne vermelha e, particularmente, de carne processada, faz sentido em termos de saúde pública promover a redução do consumo de carne”.

Esse mesmo cientificismo também pode negligenciar o impacto de eventuais conflitos de interesses. Nunca é demais lembrar de casos do passado, como o da manipulação da pesquisa sobre malefícios do cigarro pela indústria do tabaco e, também, de controvérsias mais recentes, como a crise dos opiáceos nos Estados Unidos, a polêmica do glifosato, dentre outras. Mas, mesmo que não haja influência dos produtores de carne sobre as novas diretrizes, existe uma disputa clara com a área de epidemiologia nutricional, conflito que, mesmo não sendo ilegal ou ilegítimo, precisa ser levado em consideração.

Em reportagem do The New York Times sobre o tema, cientistas da Universidade de Harvard alertam justamente que a forma como as diretrizes polêmicas foram apresentadas pode causar danos à ciência da Nutrição e, mais do que isso, “erodir a confiança pública na pesquisa científica”, evidenciando que o tiro do cientificismo pode sair pela culatra. O jornal também registra que as recomendações vêm na contramão de duas outras questões, os movimentos de proteção ao bem estar animal e, sobretudo, a necessidade ambiental de redução da atividade pecuária, lembrando-nos que a Ciência não é a única participante do debate público, e não pode dialogar com a sociedade a partir de visões muito estreitas, que ignorem o contexto mais amplo.

As ressalvas que destaquei aqui são só uma parte do amplo debate em curso e, para quem se interessar, recomendo o acesso ao site LinksMedicus.com, mantido pelo Hospital Sírio Libanês, que faz uma curadoria de materiais publicados sobre o assunto. Às considerações e alertas já postos, eu acrescento mais uma questão. Cada um de nós, individualmente, nunca terá o tempo e as ferramentas necessárias para compreender profundamente as pesquisas mais recentes em todas as áreas que nos afetam. Mesmo se pegarmos só uma – a própria alimentação, por exemplo –, essa compreensão já é bem difícil se não somos especialistas ou, no mínimo, aficionados extremamente dedicados. Assim, para chegarmos às nossas conclusões e tomarmos decisões, nos apoiamos em análises de outras pessoas em quem confiamos, em mediadores, sejam eles especialistas mais próximos – como, por exemplo, nossos médicos –, jornalistas, familiares, amigos. Para nos relacionarmos criticamente com a Ciência e os resultados da prática científica, precisamos, sem dúvida, de alguns conhecimentos prévios e ferramentas básicas, como, por exemplo, alguma clareza sobre potenciais e limitações dos métodos científicos. Mas precisamos também, além de entender, confiar, acreditar em alguém, em alguma fonte de informação. Eu não falo de uma crença emocional, exclusivamente afetiva, mas sim na confiança que é construída, esta sim, com base em evidências, e em uma educação que desenvolva as habilidades necessárias para a avaliação dessas diferentes fontes de informação.

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Sobre o Autor

Mariana Pezzo
Coordenadora Geral
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Mariana Pezzo possui graduação em Bacharelado em Comunicação Social - Jornalismo pela Universidade de São Paulo. Mestre e Doutora em Educação pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Foi Diretora de Comunicação Social da UFSCar e da Rádio UFSCar de 2001 a 2010. Foi Assessora de Comunicação da Reitoria da UFSCar e atualmente exerce a função de Coordenadora Executiva do LAbI.

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