Apesar do drama no título, é com o pensamento devaneante e prenhe da expectativa por dias melhores que me invade lentamente às vésperas das férias que escrevo esta 25a edição de Mídia e Ciência. Por isso, perdoem-me as voltas no caminho, mas espero que consigamos chegar onde eu planejei.

Na última coluna, falamos brevemente do anúncio de que um time americano de cientistas conseguiu alterar com sucesso, em embriões humanos, o gene causador de um problema cardíaco, usando a técnica Crispr (o nome completo é Crispr-Cas9). Seguindo as notícias sobre o anúncio, o tema continuou em evidência, em análises mais ou menos otimistas, mais ou menos alarmistas.

Uma abordagem divertida e instrutiva foi a do The New York Times, que lançou um teste interativo com 12 questões sobre o que já foi feito, o que é hipoteticamente possível e o que permanece no reino da ficção no que diz respeito às aplicações da Crispr. Em um outro artigo, mais denso, o jornal discute as probabilidades do uso da técnica levar ao design de seres humanos, com a escolha, no nível embrionário, de características físicas e cognitivas mais desejáveis. Embora dê destaque à conclusão de que o design de bebês está mais próximo da ficção científica do que da Ciência, boa parte do texto nos mostra que o debate ético não é tão simples assim.

O The Guardian também trouxe um artigo sobre a complexidade das questões éticas envolvidas – que chegam até a questionamentos relativos à própria concepção de ser humano – e, além disso, sobre limitações do alcance clínico dessas descobertas científicas, relacionadas, por exemplo, ao baixo número de casos que poderiam ser beneficiados e à existência de alternativas mais baratas, seguras e eficientes. Uma pesquisadora registra como é fácil esquecer essas limitações clínicas quando o avanço científico é tão excitante.

E este é um ponto importante, que me obriga a falar sobre o comentário de um leitor em uma das matérias sobre o anúncio do sucesso da edição genética usando a Crispr. Ele diz algo como “só espero que bobagens éticas não impeçam o avanço, pois se tem é para usar”. Este é um pensamento extremamente perigoso, que justamente isola o avanço científico, tornando-o soberano. Não existem “bobagens” éticas, assim como não deve existir a Ciência isolada da sociedade e de todas as suas questões éticas, sociais, filosóficas, econômicas.

Antes de continuar, deixo uma primeira dica de leitura. Se você for ler só um dos textos sobre a Crispr, leia a coluna do biólogo Fernando Reinach no Estadão, intitulada “O prazer de um cientista mediano”. É bem humorada, gostosa de ler e muito ilustrativa do modo como o conhecimento científico é lentamente construído, tijolinho por tijolinho.

Mas, se “humanos geneticamente modificados” ainda permanecem no reino da ficção científica, outros organismos frutos da engenharia genética já fazem parte do nosso cotidiano e, por isso, uma segunda dica de leitura é o artigo do Nexo sobre transgênicos, um dos mais abrangentes e equilibrados que eu já vi.

A semana também teve novidades que vão de salmão a mosquitos transgênicos. Teve, também, o vazamento de um relatório sobre mudanças climáticas que, mais uma vez, coloca o governo de Donald Trump em uma situação delicada – um conjunto de notícias sobre o vazamento pode ser acessado no boletim de 8 de agosto do Direto da Ciência. Mas onde eu queria mesmo chegar é na coluna de Marcelo Gleiser publicada na Folha de São Paulo no último dia 6, com o título “O futuro que ninguém quer ver”. Nela, Gleiser alerta que o fim do mundo tal qual o conhecemos está mais próximo do que gostamos de pensar, e que é uma aposta muito arriscada confiarmos que a Ciência encontrará as soluções necessárias. O que precisamos, enfatiza, é de uma mudança radical de mentalidade e, para esta, nenhuma engenharia genética poderá nos ajudar.

Boas leituras, e até a volta, em 15 de setembro!

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