Saúde, alimentação e perda de peso estão sempre – e cada vez mais – na pauta. Entre tantas opções, como decidir qual dieta adotar?

Esta definitivamente não foi uma boa semana para os alimentos processados. Na terça-feira (20), o JAMA (Jornal da Associação Médica Americana) publicou estudo de fôlego cujos resultados indicam que trocar alimentos com açúcar adicionado, grãos refinados e comida ultraprocessada por mais vegetais e alimentos integrais é mais importante para a perda de peso – e a Saúde – do que contar e reduzir calorias. Em outras palavras, como relata o The New York Times, que a chave para a perda de peso é a qualidade da dieta, e não a quantidade.

Alguns dias antes, outra notícia reportava uma possível associação entre um crescente consumo de alimentos ultraprocessados e a incidência de diferentes tipos de câncer. As matérias classificavam o estudo como o primeiro a olhar para essa possibilidade, a ser mais investigada, inclusive frente a várias críticas feitas à pesquisa realizada. Curiosamente, no início da semana, a Folha de S. Paulo, na editoria de Mercado, reportou que as gigantes do ramo de alimentos estão sofrendo com a queda no consumo de comida processada, supostamente sendo substituída por opções mais saudáveis…

Informações contraditórias relacionadas à alimentação não são exatamente raras no tratamento midiático do assunto. Dentre outros fatores, a grande atenção ao tema e o imenso número de notícias publicadas colabora para uma aparente confusão. Só no mês de janeiro, e considerando apenas alguns poucos veículos, eu localizei cerca de 30 reportagens significativas sobre nossa dieta, falando de óleo de coco, bebidas gasosas, álcool, carboidratos no jantar, peixe, carne, glúten e até sushi, dentre vários outros assuntos. Aqui em Mídia e Ciência mesmo o assunto já pautou duas colunas, em setembro e em outubro do ano passado.

Obesidade, dieta e economia

Toda essa atenção – além de responder à própria demanda do público – está relacionada a um outro tema que foi pauta nesta semana: a epidemia de obesidade, que já é mundial. E aí temos mais polêmica. No dia 9 de fevereiro, a Folha publicou, traduzida do The New York Times, notícia sobre regras duras adotadas pelo Chile para combater a obesidade no País, relacionadas principalmente ao marketing dirigido às crianças. O texto registra como a política chilena pode ser modelo para outros países, mas também destaca a resistência da indústria ao controle governamental. No dia 14, foi a vez do jornal O Globo, que falou de como estudo da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) caracterizou a obesidade como “assassino invisível” na América Latina. Mas, enquanto o texto de O Globo alerta para a escassez de políticas públicas para combate ao problema, a mesma Folha se manifestou sobre a medida chilena em editorial no dia 15 saindo em defesa da liberdade das empresas de atuar e do cidadão de escolher… Portanto, criticando a política pública.

A Folha fala em alimentos que, diferentemente do cigarro, são necessários à vida. No entanto, como o cigarro, alguns alimentos também estão matando! É preciso, portanto, ficar atento a possíveis conflitos entre evidências científicas e perspectivas econômicas. Além disso, também às responsabilidades da Mídia e da Ciência. Sobre isso, também nesta semana o Nieman Lab apresentou uma iniciativa que busca aproximar especialistas de jornalistas para elevar a qualidade do jornalismo sobre Ciência, o Sciline. Outro texto que pode enriquecer nossa reflexão foi publicado na Science, e fala, por sua vez, do papel da Ciência e dos cientistas, que devem buscar compartilhar o que estão aprendendo sobre o mundo, com respeito, humildade, e incluindo “tudo o que estamos fazendo enquanto comunidade científica para assegurar que o que estamos compartilhando é válido”.

Acesso a informação relevante, de qualidade e contextualizada: estas são questões centrais para que as pessoas possam, no mar de pesquisas e de notícias sobre pesquisas relacionadas de alguma forma à alimentação, ter pontos de referência que permitam a compreensão não só do conteúdo científico, mas também da natureza da Ciência e das suas relações com as demais esferas da atuação humana. Só assim poderão tomar decisões mais informadas e melhores sobre aquilo que comem todos os dias, além de reinvidicarem políticas públicas que as ajudem nesse processo.

Boas leituras, e boa semana!

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