Se você prestou alguma atenção ao noticiário de C&T na semana que passou, notou a recorrência dos temas HIV e AIDS. Essa atenção é devida à realização, em Paris, da 9ª Conferência de Ciência sobre o HIV da Sociedade Internacional contra a AIDS (IAS), do dia 23 ao dia 26 de julho.

Felizmente, tivemos várias boas notícias. No dia 25, a ênfase foi dada ao anúncio dos resultados “encorajadores” de um estudo que está testando uma vacina contra o vírus. Dos 393 voluntários inoculados, todos tiveram resposta imune, ou seja, a produção de anticorpos. Mas a pesquisa está só começando, como adequadamente alertou o texto publicado no G1 e no Estadão, originalmente produzido pela Agência France Presse (AFP). No dia anterior, notícias publicadas na Agência Brasil e em O Globo – novamente a partir de informações de agências de notícias – destacaram um outro estudo, com resultados promissores de uma injeção antirretroviral que precisa ser aplicada uma única vez ao mês, em substituição às doses diárias dos comprimidos usados atualmente. Mas quem dominou as páginas impressas e digitais naquele dia 24 foi a criança sul-africana de 9 anos que, tendo contraído o HIV da mãe durante a gestação, está há oito anos com níveis do vírus invisíveis aos testes usados regularmente, sem que tenha feito uso do tratamento desde as 40 semanas de vida.

Noticiaram a “quase cura”, no Brasil, no mínimo O Estado de S. Paulo, o G1 e o jornal O Globo, juntamente com vários outros veículos estrangeiros. A matéria do Estadão tem alguns problemas relevantes, já que a manchete diz que não há sinais do HIV, o que não é verdade, já que testes mais sensíveis que os tradicionais indicam que uma pequena carga viral remanesce. Depois, há uma frase sobre o tema que é um ótimo exemplo de tautologia: “não pode ser considerada curada porque atualmente ainda é impossível eliminar o vírus do corpo dos portadores”. Ou seja… Ela não está curada porque não há cura? Mas não é só o Estadão que peca, as outras matérias também estão confusas e, para quem se interessar, eu recomendo a leitura da matéria publicada no site da revista Science, que não só noticia, mas também traz uma rica análise das implicações da notícia, e algumas visões mais céticas em relação ao real significado desse resultado.

Aliás, toda a cobertura da mídia brasileira para o evento deixa a desejar, com a reprodução das informações das agências de notícias, o que pode indicar um despreparo e falta de atenção ao tema que, por sua vez, podem ter a sua parcela de responsabilidade nas más notícias da semana. No dia 20, ainda antes do início da Conferência, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) havia divulgado um relatório mostrando que, enquanto as novas infecções caíram 16% em termos mundiais no período entre 2010 e 2016 – alcançando o menor número desde o início da epidemia, na década de 1980 –, no Brasil o índice cresceu 3%, crescimento que se dá também no cenário da América Latina. No mesmo dia, a Organização Mundial da Saúde (OMS) também divulgou dados que alertam sobre cepas do HIV resistentes a alguns medicamentos.

Oras, como um país que durante muitos anos esteve na liderança mundial no que diz respeito ao combate ao HIV agora é responsável pela metade das novas infecções ocorridas em 2016 na América Latina, indo na contramão da tendência – e das metas – mundiais? Em uma das reportagens, o Presidente da Sociedade Brasileira de Doenças Sexualmente Transmissíveis pondera que os números podem, em parte, estar relacionados a avanços na vigilância e no diagnóstico. Porém, ele também destaca uma piora nas estratégias de prevenção, o que é corroborado pelas altas nas demais DSTs. Este é um aspecto destacado também por outros especialistas, que também põem em foco o fato de que podemos estar acomodados no nosso sucesso e em uma sensação de controle da epidemia, bem como de que os jovens atuais não viram a pior parte da epidemia, quando o diagnóstico era uma sentença de morte.

Por tudo isso, é importante que a mídia brasileira volte a falar do HIV e de Aids, e não apenas uma vez por ano.

Para desanuviarmos um pouco, minha dica é o artigo publicado no The Washington Post que, de forma deliciosamente bem humorada, fala das dificuldades na produção de conhecimento sobre a alimentação humana e dos problemas da cobertura da mídia sobre o campo da Nutrição, oferecendo dicas preciosas de como nos comportar quando lemos que o ovo faz bem, ou mata, ou que o café vai nos tornar imortais!

Boa leitura, e boa semana.

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