Hoje a gente volta a falar sobre aquilo que não apareceu na mídia (brasileira).

No dia 21 de junho, uma corte nova-iorquina determinou que o Sci-Hub e o Libgen (Library Genesis Project) paguem mais de US$ 15 milhões ao grupo editorial Elsevier, um dos maiores do mundo em publicações acadêmicas. Este é mais um capítulo de uma guerra sobre direitos autorais na Ciência que tem origem em 2011, quando o Sci-Hub foi criado pela jovem neurocientista Alexandra Elbakyan, do Cazaquistão, para oferecer acesso livre a milhões de artigos publicados em periódicos cujas assinaturas muitos não podem pagar. O mecanismo de funcionamento do Sci-Hub conta com a ajuda da comunidade científica apoiadora do projeto, que fornece suas senhas para que os artigos sejam baixados. A iniciativa é conhecida como “Robin Hood” e “Pirate Bay” da Ciência, ambas alcunhas rejeitadas por Alexandra, que diz não roubar nada, uma vez que os autores – diferentemente dos artistas, por exemplo – não deixam de receber devido à ação do Sci-Hub, já que não são remunerados pelos artigos e, inclusive, muitas vezes têm de pagar para que sejam publicados.

Controvérsias à parte, todo o movimento gerado pelo Sci-Hub vem suscitando debates importantes sobre o lugar ocupado pelos periódicos no funcionamento da Ciência e, muito especialmente, sobre como esse mercado editorial está organizado. Não são poucas as organizações que vêm negociando com as editoras licenças mais aceitáveis, bem como não são raros os movimentos de boicote a periódicos. No entanto, no Brasil, até o momento, só localizei o texto do Nexo sobre o movimento mais recente contra o Sci-Hub e, para além desse episódio, me parece que em geral as questões em torno dos periódicos, que não são poucas, não vêm recebendo a devida atenção. Lemos cada vez mais sobre fraudes, mas não tão frequentemente sobre as possíveis causas para essa aparente escalada de artigos retratados ou, em outro ponto desse mesmo cenário, de resultados irrelevantes e/ou que não podem ser reproduzidos. A pressão pela publicação – e a postura predatória de alguns periódicos –, na chave negativa, e a função da publicação na produção de conhecimento, pelo lado positivo, são centrais demais no empreendimento científico atual para permanecerem nas margens e rodapés das narrativas sobre a Ciência.

Ainda sobre este assunto, se você for ler apenas um texto esta semana, recomendo o longo artigo publicado no The Guardian como tentativa de resposta à questão: o negócio assustadoramente lucrativo da publicação científica é ruim para a Ciência? Dentre muitos outros aspectos de extrema relevância, incluindo um olhar histórico espantoso, o artigo destaca a fórmula mágica – e quase inacreditável – adotada por esse mercado, resumida na declaração de um pesquisador que questiona: “Que outra indústria recebe sua matéria-prima de seus clientes [os cientistas, autores dos artigos], faz com que esses mesmos clientes conduzam o controle de qualidade desse material [os mesmos cientistas, agora pareceristas voluntários] e, então, vende esse mesmo material de volta a esses clientes a preços amplamente inflados?”.

Para encerrar, quero registrar uma outra reflexão suscitada pelas leituras da semana. Coincidentemente, a mesma Elsevier publicou, no dia 22, estudo mostrando que o Brasil lidera, junto com Portugal, o ranking da participação feminina na produção científica, com o percentual de 49% no período 2011-2015 (um crescimento de 11 pontos percentuais em relação ao período anterior). Uma boa notícia, sem dúvida, embora algumas desigualdades importantes ainda persistam. No momento em que eu escrevo esta coluna, a repercussão ainda é pequena, mas certamente aumentará ao longo da semana. Porém, em um outro extremo, uma notinha perdida em algum outro lugar me chamou a atenção para um estudo publicado pelo grupo Nature, que, como bem descrito em notícia da New Scientist, mostra que o uso exclusivo de cobaias (animais) masculinas nas pesquisas pode estar impedindo as mulheres de terem acesso a medicamentos mais adequados às suas necessidades específicas… Em outras palavras, o que eu quero destacar é que o caminho ainda é bem mais longo do que pode parecer às vezes.

Boas leituras, e uma boa semana.

 

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