A publicação de dois textos sobre o financiamento da Ciência no Brasil – ou a falta dele, atualmente – em um dos principais veículos de comunicação do País em uma mesma semana é um termômetro significativo de que algo vai mesmo muito mal. Isto porque a política científica e tecnológica não é pauta frequente na mídia brasileira.

No domingo, dia 9 de abril, Reinaldo José Lopes, em sua coluna quinzenal na Folha de S. Paulo, publicou o texto intitulado “Sob terra arrasada, ciência do Brasil precisa de caminhos para se reinventar”. Nele, fala do corte do orçamento para a C&T em 2017 quase pela metade – e aos mesmos níveis de 2005 –, e pondera que a comunidade científica precisa reagir indo além da repetição do “mantra” de que o orçamento para pesquisa não é gasto, mas sim investimento. Para essa reação, elenca como relevantes mudanças no diálogo com a sociedade e, também, nos modelos institucionais que sustentam a produção do conhecimento científico. Na mesma Folha, no dia 12,  Helena Nader e Luiz Davidovich (presidentes da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a SBPC, e da Academia Brasileira de Ciências, ABC, respectivamente) estamparam um título ainda mais dramático na seção Tendências e Debates: “Ciência brasileira: últimos suspiros?”. Falam também, é claro, do corte orçamentário, iniciando por exemplos recorrentes como introdução ao “mantra” – a produtividade agrícola brasileira, o petróleo no pré-sal, a indústria aeronáutica –, ressaltando o fim de possibilidades como estas com o corte e terminando com a também clássica comparação com países de economia baseada em C&T.

Não foi apenas a Folha que tratou do tema. No dia 10, O Globo publicou o belo texto “Conhecimento sem cortes”, de Ligia Bahia, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ligia, por sua vez, cita o texto da Nature que tratou dos cortes, texto este que dominou as timelines de pesquisadores e simpatizantes ao longo dos últimos dias.

São todos, sem dúvida, alertas relevantes. Pergunto-me, no entanto, com quem dialogam, ou o que pretendem obter como efeito – além do desabafo público, é claro. Isto porque concordo inteiramente com Reinaldo Lopes no que diz respeito à necessidade de transformar profundamente o diálogo entre Ciência e sociedade e, para tanto, também as narrativas midiáticas sobre C&T. Dentre outros aspectos, retomo o fato de que as escolhas, dilemas, disputas de poder, interesses envolvidos na definição de políticas públicas na área são menos abordadas do que deveriam. O tema acaba virando destaque apenas em momentos críticos como o atual – o que por si só já não me parece eficaz no que diz respeito à valorização da C&T e, também, à possibilidade de participação popular nessas escolhas – e, em geral, com um tom ligeiramente arrogante, que defende os investimentos em Ciência simplesmente porque ela é “o máximo”, sem gastar muita energia justamente para concretizar aquilo que embasa a dualidade gastos x investimento.

Exemplifico. No texto de Ligia Bahia em O Globo, por exemplo, são listados, como consequências dos cortes, “abandono de programas de intercâmbio, diminuição do número de trabalhos publicados e perigos de descontinuidade de um grande projeto como o Sirius Síncroton, acelerador de partículas, que viabiliza a participação brasileira em diversos esforços para inovação, inclusive na saúde”. A autora pergunta se as autoridades responsáveis pelos cortes “compreendem a relevância da área para o futuro do Brasil”. E eu questiono: será que a população compreende porque os intercâmbios, o número de publicações e o Sirius Síncroton são relevantes?

Um outro exemplo. No dia 9, a Folha publicou notícia sobre a construção de um centro de pesquisas em Fernando de Noronha. Lendo, ficamos sabendo que a estação científica, prevista para entrar em funcionamento em 2018, será a maior dentre os postos de pesquisa mantidos pela Marinha em ilhas do Atlântico, comportando 16 pesquisadores simultaneamente em 1.380 m2 de área construída, com uma edificação em madeira que não superará os 7 metros de altura para não comprometer a paisagem. Descobrimos também o escritório responsável pelo projeto arquitetônico da estação, e que ainda não se sabe o preço da construção. E somos informados de que a manutenção anual deverá consumir R$ 700 mil, que o deslocamento até lá deverá ser feito principalmente por via aérea e que os pesquisadores interessados deverão submeter propostas ao CNPq. Para pesquisar o que? Nem uma linha sobre isso. E por que essa pesquisa é importante? Porque sim.

No próximo dia 22 teremos a Marcha pela Ciência, oportunidade ímpar de conferirmos visibilidade a essas questões e outras não abordadas aqui. Por enquanto, a cobertura midiática tem sido pontual, quase inexistente. Na grande imprensa e em publicações especializadas dos Estados Unidos – que também terá a sua March for Science, inspiração para a versão brasileira –, a Marcha tem sido gancho para variadas análises dos impactos de Trump sobre a produção e disseminação do conhecimento, indo muito além do corte orçamentário para falar de ambiente, ética, liberdade de informação, dentre outros temas.

Que nós também aproveitemos a ocasião.

Uma sugestão de como aproveitar está na primeira dica de leitura desta semana, um artigo publicado em The Chronicle of Higher Education pela pesquisadora Sherry Pagoto, que comenta como a Marcha pela Ciência pode “informar e inspirar”. Se você vai à Marcha, leia. Se não vai mas se importa, leia também. Escreve a autora: “Talvez o melhor uso da Marcha seja mostrar ao público o que ele está ganhando a partir do seu investimento. Eu suspeito que ele gostaria de saber.”.

A segunda dica volta à coluna da semana passada, pois a revista ComCiência acaba de lançar, na sua edição de abril, um dossiê sobre “Substâncias Polêmicas”. É claro que a fosfoetanolamina está lá. Mas temos também maconha (canabidiol e THC), cogumelos, vitaminas e ayahuasca.

Boa leitura, e boa semana.

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