Congresso Internacional de Matemáticos e os cortes na Capes foram retratados por meio das pessoas que fazem a Ciência

No dia 1º de agosto, começou no Rio de Janeiro o Congresso Internacional de Matemáticos, maior encontro internacional da área, realizado a cada quatro anos desde 1897 e, nesta edição, pela primeira vez em um país da América Latina. Dificilmente você não ouviu falar do evento; mas, provavelmente, não foi sobre o que ele representa para a Matemática brasileira ou sobre algum trabalho que atraiu a atenção dos participantes, e sim sobre a infelicidade do roubo da Medalha Fields, conhecida como “Nobel da Matemática” – entregue, e furtada, já no primeiro dia do Congresso.

Desde que começou, não houve um dia sem que o Congresso Internacional de Matemáticos aparecesse na mídia. Já no dia da abertura do evento, o matemático Marcelo Viana – Presidente do comitê organizador do Congresso e Diretor do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) – declarou na Folha de S. Paulo sua expectativa de que o Congresso viesse a colocar a Matemática “na boca das pessoas”, divulgando e popularizando a disciplina. Para tanto, a edição brasileira do evento teve uma programação especial de palestras de divulgação, que abordaram, dentre outros temas, as propriedades geométricas dos flocos de neve e as contribuições da Matemática à Arte. Infelizmente, a partir do incidente na cerimônia de abertura, qualquer assunto matemático que pudesse vir a se tornar popular a partir do Congresso foi ofuscado pelo furto da medalha e, frequentemente, também pela lamúria vira-lata de que não estamos preparados para receber – ou não merecemos – um evento de tamanha importância.

Além desse complexo de inferioridade e da atração midiática pelo inusitado e, talvez mais ainda, pela tragédia, é preciso considerar também as dificuldades inerentes à divulgação da Matemática. O próprio Marcelo Viana, que é colunista na Folha, também comentou como dois pesquisadores de áreas distintas da Matemática frequentemente não têm como compreender um o trabalho do outro. Comunicar o conhecimento científico geralmente já não é uma tarefa trivial e, assim, falar do conhecimento mais avançado nas diferentes áreas da Matemática pode se aproximar do impossível. Em parte, pela própria natureza da disciplina e sua linguagem, mas, também, pela formação matemática que a maior parte de nós, jornalistas inclusive, recebeu.

Talvez por causa dessa dificuldade, quase todas as reportagens relacionadas ao Congresso são muito mais relatos biográficos do que notícias sobre Ciência. Ficamos sabendo, por exemplo, da infância difícil e do papel do irmão no despertar do interesse pela Matemática em Caucher Birkar – o iraniano de origem curda que teve a medalha roubada. Dos outros três medalhistas deste ano, as notícias nos contam que o alemão Peter Scholze, o mais jovem entre eles – com 30 anos –, precisou de apenas dois anos e meio para concluir graduação e mestrado; que o indiano Akshay Venkatesh ingressou no bacharelado em Matemática e Física aos 13 anos e, mais tarde, já pesquisador no Massachusetts Institute of Technology (MIT), ocupou a mesma posição que o famoso John Nash; e que o italiano Alessio Figalli só queria saber de jogar futebol até chegar ao Ensino Médio. Outros personagens são os brasileiros Artur Ávila – que ganhou a Fields em 2014 –, Fernando Codá Marques – que era cotado para a premiação deste ano – e, também, as meninas e os meninos medalhistas da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep), cuja premiação deste ano aconteceu no Congresso Internacional de Matemáticos.

O recurso a personagens e relatos biográficos é recomendado, na área da divulgação científica, como estratégia para mostrar a Ciência como produção humana e coletiva, e não obra solitária de alguns poucos gênios. A cobertura do Congresso Internacional de Matemática, no entanto, me parece fortalecer a ideia de que Birkar, Scholze, Venkatesh e Figalli não são gente como a gente, e que compreender a Matemática não está ao meu alcance. No outro extremo, a reação ao anúncio de que todas as bolsas e outros projetos apoiados pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) poderiam ser suspensos em 2019 foi um exemplo muito positivo de personalização e humanização da prática científica.

No dia 2 de agosto – dia seguinte, portanto, ao início do Congresso Internacional de Matemáticos –, a Capes alertou que, se forem mantidos os cortes orçamentários previstos para o ano que vem, as bolsas de 93 mil pós-graduandos e mais quase 350 mil outros bolsistas da agência precisarão ser suspensas. Rapidamente, as redes sociais foram se enchendo de relatos identificados com as hashtags #MinhaPesquisaCapes e #existepesquisanobr, dentre outras, em que pesquisadoras e pesquisadores apresentam os estudos que realizam e buscam evidenciar os prejuízos decorrentes da sua interrupção. Vale a pena buscar pelas publicações no Facebook, Twitter e afins, para conhecer um pouco da Ciência que é feita no Brasil pelas palavras dos próprios cientistas. É claro que há relatos mais ou menos bem sucedidos em contar e explicar essa prática, mas merece registro e comemoração esse esforço coletivo para ir além da máxima “dinheiro para a Ciência não é gasto, é investimento”.

O investimento, agora, tem rosto, nome, história e voz. Que essas vozes, que podem ser também de matemáticas e matemáticos, continuem empenhadas em compartilhar com cada vez mais gente o conhecimento que produzem.

Boas leituras, e até a semana que vem.

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