Lançamento de “pílula digital” para o tratamento da esquizofrenia ilumina vínculos entre marketing e jornalismo

No dia 14 de novembro, um novo remédio para o tratamento de pacientes com esquizofrenia e outros transtornos mentais virou celebridade instantânea no Brasil e no mundo. Não se trata exatamente de uma nova droga, mas, sim, da associação entre um produto já existente – o Abilify (aripiprazol) – e um sensor que, ao ser ingerido, registra em um software o consumo do medicamento e pode compartilhar essa informação com médicos e familiares do paciente, quando autorizado.

A formulação – chamada de Abilify MyCite – pode vir a ser útil para aumentar o compromisso de pacientes com o uso correto da medicação, ou para permitir que profissionais da Saúde e familiares intervenham no caso de pacientes com capacidades reduzidas de gestão da sua própria saúde. Mas ainda não há estudos que confirmem essas expectativas. O remédio, inclusive, só será lançado no próximo ano, nos Estados Unidos, e para um grupo reduzido de pacientes. Mesmo assim, sua aprovação pela FDA – a Anvisa dos EUA – virou notícia em quase todos os principais veículos da mídia brasileira, como a Folha, o Globo e, até mesmo, o Jornal Nacional.

Assim como a nova pílula é rastreável, a origem das informações compartilhadas por todos esses veículos também é. As narrativas são todas muito parecidas e, em linhas gerais, destacam os mesmos pontos, “contam a mesma história” que os press releases (comunicados à Imprensa) publicados pela FDA e pelas empresas responsáveis pelo Abilify MyCite. As fotos usadas, inclusive, são todas da própria Proteus Digital Health, fabricante do sensor (a outra companhia envolvida é a Otsuka), o que parece indicar que, até agora, ninguém mais viu a traquitana com seus próprios olhos.

Há uma outra fonte compartilhada: a longa e multifacetada matéria publicada no The New York Times, cujo texto (mal) traduzido constitui, inclusive, a versão da Folha de São Paulo. O NYT introduz toda a discussão sobre bioética suscitada pela novidade, que é depois – felizmente – reproduzida nos demais veículos, inclusive com a mesma fonte, Paul Appelbaum, da Columbia University.

Pílula digital, marketing, conflitos de interesses e os cuidados a serem tomados

Por tudo isso, minha impressão da cobertura foi de um trabalho um tanto preguiçoso, e até mesmo a escolha da pauta me parece um pouco problemática, pois avalio como uma certa vulnerabilidade da mídia brasileira às estratégias de relações públicas da indústria – e outras organizações – dos Estados Unidos. O tema pode até ter a sua importância, mas será que suficiente para tanto alarde?

Não são poucos outros produtos em desenvolvimento que aliam as pesquisas em Saúde às tecnologias digitais. Coincidentemente, a Folha publicou alguns dias depois, em 16 de novembro, artigo do Presidente da Roche Farma Brasil sobre inovação em Saúde… Avanços nas estratégias, processos e produtos voltados à melhoria da vida humana são sem dúvida desejáveis e motivo de celebração. Mas também são necessários alguns cuidados e, parte deles, está relacionada justamente à bioética, tema sobre o qual minha dica é a entrevista que tivemos a felicidade de realizar com o saudoso Prof. William Saad Hossne, considerado o Pai da Bioética no Brasil.

Mas há uma outra área que exige atenção, que são possíveis conflitos de interesses entre a indústria farmacêutica e outros atores privados no campo da Saúde, a motivação científica e as necessidades e demandas da população. Chama a atenção, por exemplo, como a Nasdaq noticiou alta nas ações da Otsuka após o anúncio da aprovação do Abilify MyCite.

Este é um tema que, ampliado para a Ciência como um todo, devemos abordar de novo em breve por aqui, já que a narrativa sobre os cortes dos recursos públicos destinados à Ciência brasileira parece começar a ser substituída pela defesa dos investimentos privados como solução, inclusive com o anúncio – meio disfarçado – da criação de um Programa de Excelência para Universidades e Institutos pelo Ministério da Educação, atrelado a um fundo privado.

A história se repete, e temos de estar atentos. Mas, aqui, por hoje, é só! Boas leituras, e uma boa semana.

 

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