“Missão Juno revela que Júpiter tem ciclones e forte magnetismo”

ou…

“Observações iniciais revelam um Júpiter bem diferente do que esperavam os cientistas”.

Qual das duas frases informa melhor? Para mim, a segunda, de longe.

Ambas são manchetes do dia 25 de maio, quando a Nasa divulgou os primeiros resultados da missão Juno, que partiu para Júpiter em 2011 e só agora começa a dar seus primeiros mergulhos para ficar mais próxima da atmosfera do maior planeta do Sistema Solar.

Esses resultados foram publicados em dois artigos na revista Science e 44 em um número especial do periódico Geophysical Research Letters. Imaginem, portanto, a quantidade de informações compartilhadas pelos pesquisadores!

A partir delas, escolhas precisaram ser feitas para a divulgação das novidades junto ao grande público, para a formulação das manchetes que apareceram em todos os principais veículos jornalísticos do Brasil e do mundo. E são essas escolhas que, na minha análise, dividiram esses veículos em dois grupos: aqueles com títulos semelhantes à primeira frase desse texto (manchete na Veja), destacando como notícias informações que, pelo menos para mim, não dizem quase nada; e os que optaram por enfatizar aquilo que, do meu ponto de vista, é a informação mais relevante para o público em geral – o fato de que muito daquilo que a Ciência já sabia, ou imaginava saber, sobre Júpiter, aparentemente não é verdade, e que há mais mistérios do que se imaginava para além da superfície com a qual estamos acostumados a identificar nosso vizinho gigante e gasoso. (A propósito, a segunda frase é o subtítulo da matéria publicada em O Globo, com o título “Nasa divulga primeiros resultados científicos da missão Juno” e um texto bastante explicativo, do qual recomendo a leitura para quem se interessar pelo tema.)

De certa forma, assim como há mistérios nas camadas de Júpiter, há “camadas de informação” nas quais podemos ir mais ou menos fundo no momento da divulgação para o público não especializado. A primeira delas é justamente o fato de que os resultados iniciais da missão Juno revelam um planeta bem diferente daquele imaginado durante décadas, ou, como afirma o cientista-chefe na abertura do texto de O Globo, que este “É um Júpiter totalmente novo”. Acredito que, para grande parte das pessoas, este pedaço de informação é suficiente – sem que sintam necessidade de saber como se achava antes que Júpiter era e o que se descobriu de diferente agora. Outras, no entanto, talvez se intriguem com os fatos de que: “Júpiter tem um campo magnético ainda mais intenso do que se imaginava, seus polos turbulentos são diferentes de tudo que os cientistas já viram e os padrões atmosféricos vistos no topo das nuvens jovianas se aprofundam por centenas de quilômetros.”, como registra Salvador Nogueira no primeiro parágrafo do texto publicado em seu blog, o Mensageiro Sideral. Porém, eu imagino que muito menos gente esteja interessada nos meandros da distribuição de amônia pela atmosfera de Júpiter, nos detalhes do mecanismo que provoca o fenômeno das “auroras boreais” no planeta gigante ou na relação entre seu campo magnético e a composição de seu núcleo…

Mas há algo mais relevante do que o interesse das pessoas, que é a capacidade da notícia de fato informar. Na matéria da Veja já mencionada, as informações detalhadas apresentadas de modo enciclopédico – ou seja, fragmentado, sem que sejam estabelecidas as relações entre elas – dificultam o entendimento de quaisquer pessoas, interessadas ou não, e, mais do que isso, obscurecem aquilo que é o principal: a indicação da necessidade de rever os modelos a partir dos quais as expectativas sobre Júpiter, agora frustradas, foram criadas, bem como a importância desses modelos e das novas informações para compreendermos não apenas Júpiter, mas todo o Sistema Solar. Não me entendam mal: não acho que os detalhes sejam dispensáveis, mas sim que, de um lado, são necessárias escolhas considerando o público para o qual escrevemos e, de outro, e mais importante, que para conseguirmos explicar algo é preciso, antes de mais nada, que compreendamos aquilo que desejamos contar.

Para quem se interessar em saber um mais sobre tudo o que não sabemos sobre Júpiter, recomendo inicialmente, como já anotado, a reportagem de O Globo. Se quiser mais informações sobre aquilo que acabamos de descobrir, a minha dica é a leitura do Mensageiro Sideral, que inclusive tem links para os artigos originais e, também, o vídeo da coletiva de imprensa na qual os resultados foram anunciados (com tradução simultânea).

Novamente nas palavras dos próprios pesquisadores da missão Juno, nós “estávamos simplesmente errados”, mas felizmente, como registra Salvador Nogueira, “a aventura de Juno está só começando”.

É assim que caminha o conhecimento científico e, para uma última reflexão sobre isso, sobre o papel dos erros e, melhor dizendo, das expectativas frustradas e/ou resultados negativos, na construção da Ciência, uma última dica de leitura é de um artigo publicado no New York Times alertando que a “Ciência precisa de uma solução para a tentação dos resultados positivos”. E não só a Ciência, mas também a mídia.

Boa leitura, e boa semana.

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