A Ciência brasileira aparece pouco na mídia. As justificativas para essa realidade em geral seguem dois caminhos, muito provavelmente complementares: as equipes reduzidas nas principais editorias de Ciência (quando essas editorias existem, o que é raro atualmente), o que cria grande dependência dos comunicados enviados à mídia pelos principais periódicos científicos internacionais – sob embargo, ou seja, condicionando a publicação de notícias à publicação do artigo científico, alguns dias após o envio do comunicado –; e a inexistência de veículos e/ou serviços que concentrem as informações sobre os estudos desenvolvidos no País, fato que, associado ao primeiro aspecto mencionado, tornaria uma tarefa difícil aquelas equipes reduzidas localizarem as pesquisas mais relevantes e/ou mais atraentes para o público.

Esta semana, no entanto, teve algumas exceções dignas de nota. A de maior destaque foi a publicação, na revista Science, dos resultados de estudo que evidencia correlações entre a composição vegetal atual da Floresta Amazônica e a domesticação de espécies pelas civilizações pré-colombianas. O artigo, com colaboração de mais de 100 pesquisadoras e pesquisadores, tem como primeira autora Carolina Levi, doutoranda no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e na Universidade de Wageningen, Holanda.

Além da relevância própria do estudo, o fato de ter sido noticiado em tantos veículos diferentes, nacional e internacionalmente, configura uma oportunidade interessante de leitura comparada, que evidencia, sobretudo, as diferentes possibilidades de escolha de um ou outro foco como prioritário, além de características emblemáticas do processo de transformação do discurso científico em uma notícia sobre C&T. Para exemplificar este último aspecto, sugiro uma rápida reflexão sobre as diferenças entre esses títulos: “Efeitos persistentes da domesticação pré-colombiana de plantas na composição da Floresta Amazônica” (título do artigo original publicado na Science), “Centenas de anos depois, plantas domesticadas por civilizações ancestrais ainda dominam na Amazônia” (notícia sobre a descoberta publicada na Science), “Populações pré-colombianas podem ter domesticado a Amazônia” (Pesquisa Fapesp), “Estudo revela que povos indígenas tiveram forte impacto na composição da Amazônia” (G1), “Civilizações pré-colombianas moldaram vegetação da Amazônia” (Folha de S. Paulo).

Considerando o primeiro aspecto que mencionei, ou seja, a diversidade de olhares possíveis para o estudo, recomendo a leitura da notícia publicada na própria Science, por abordar a maior diversidade de camadas: a origem da questão que motivou o estudo; sua metodologia, que envolve aspectos de interdisciplinaridade, pesquisa colaborativa e, também, o fato de que há uma longa história até chegarmos ao resultado apresentado neste momento; os resultados em si, bem como questionamentos sobre o seu real significado; e, ainda que muito brevemente – como, aliás, em toda a cobertura com a qual tive contato –, o debate que é pano de fundo importante para o tema estudado, sobre uma Natureza intocada versus a perspectiva que privilegia as relações entre ambiente e seres humanos. Aliás, sobre esse assunto, sugiro a leitura do texto publicado em 2013 na Nature, que traz um apanhado histórico dos estudos sobre os impactos da atividade humana ancestral na composição atual da Floresta e comenta as implicações desse debate sobre a filosofia da conservação e, até mesmo, sobre a questão da demarcação de terras indígenas.

Foto que ilustra matéria da Science (Science/ Carolina Levis)

Fotografia que ilustra matéria da Science (Science/ Carolina Levis).

Em relação à mídia brasileira, da cobertura nacional ficaram ausentes os questionamentos – o contraditório –, que referem-se não ao papel decisivo da domesticação na composição atual da Floresta – o que parece ser um consenso –, mas à localização temporal – no período pré-colombiano ou mais recentemente – das ações de domesticação hoje marcadas no perfil da vegetação. Feita a ressalva, me pareceram mais completos o texto publicado pelo G1, que traz como diferencial um histórico do debate sobre domesticação, e o comunicado do próprio INPA, que insere a pesquisa atual em um contexto mais amplo.

Além deste destaque à Ciência brasileira que representa a publicação do estudo na Science, uma outra boa notícia da semana foi a estreia, na sexta-feira, no site da Folha de S. Paulo, de mais uma coluna voltada à divulgação científica, assinada pelo matemático Marcelo Viana, Diretor do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada. E, também na Folha, outra dica de leitura é o especial sobre a reconstrução da Estação Antártica Comandante Ferraz, publicado na edição impressa de domingo com grande destaque – capa e três páginas do caderno Cotidiano – e, também, em versão multimídia com farto conjunto de ilustrações, fotos e vídeos.

E uma nota de rodapé: na quarta-feira, 8 de março, Dia Internacional das Mulheres, a academia deixou a editoria de Ciência e foi até a editoria de Política, na entrevista da Folha com Luciana Panke, professora da Universidade Federal do Paraná, que acaba lançar livro sobre mulheres na política resultado de entrevistas em 14 países da América Latina.

Boa leitura e boa semana!

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