Reportagem no Jornal Nacional transforma prótese ocular em celebridade

Foram só dois minutos. Mas, depois deles, a vida de uma pesquisadora não foi mais a mesma e dezenas de outras pessoas encheram-se da esperança de que todos os minutos futuros possam ser de uma existência com mais autoestima, segurança, felicidade, qualidade de vida.

Na noite de 19 de julho, o Jornal Nacional exibiu reportagem sobre um implante ocular desenvolvido por pesquisadores dos departamentos de Medicina e de Engenharia de Materiais da UFSCar, em parceria com Unesp e USP. Dentre outras vantagens, a prótese tem melhores resultados estéticos, diminui as chances de rejeição e é muito mais barata que aquelas disponíveis atualmente, importadas.

Na manhã do dia 20, telefones e e-mails da assessoria de Comunicação da UFSCar encheram-se de mensagens de pessoas que assistiram à reportagem, em muitos casos desesperadas por anos de discriminação e outros problemas associados à perda de um olho. Queriam saber como ser um dos pacientes beneficiados pela “prótese revolucionária” anunciada no Jornal Nacional.

O caso – que aconteceu pertinho de mim – é uma oportunidade para mais algumas reflexões sobre o jornalismo de Saúde. Mas, antes disso, permite reiterarmos o alcance da televisão no Brasil e, muito particularmente, da Rede Globo e seu Jornal Nacional. Na última pesquisa sobre hábitos de consumo de mídia realizada pelo Governo Federal, em 2016, 63% das mais de 15 mil pessoas entrevistadas disseram que se informam sobre o que acontece no Brasil pela TV, e esta porcentagem cresce conforme diminuem escolaridade e renda. Além disso, 77% das pessoas assistem TV todos os dias e, fundamentalmente, à Rede Globo, citada como emissora mais assistida por 56% dos entrevistados. A segunda colocada – Record – ficou com 12%!

Todo esse alcance destaca ainda mais a relevância de um debate específico, agora sim, da área da Saúde. Em discussões sobre o que divulgar, em geral não há consenso sobre falar dos avanços científicos mais recentes ou só tratar daquilo que de fato já está acessível, considerando o sofrimento causado pela frustração das expectativas criadas. Eu tendo a defender que as duas coisas são pauta, já que defendo a importância da participação popular nos momentos de tomada de decisão sobre, por exemplo, prioridades para investimentos. Mas, falar daquilo que ainda não está disponível ali na esquina exige muito cuidado, como já alertei outras vezes por aqui.

No caso do implante ocular, a oftalmologista Simone Milani Brandão vem estudando a solução há mais de 10 anos, desde o seu mestrado, com ótimos resultados. Como registra o Jornal Nacional, cerca de 50 pessoas de fato já receberam a prótese, sem nenhum caso de rejeição. O que o telejornal “esquece” de dizer é que essas pessoas participaram do estudo que comprovou a eficácia da tecnologia, ou seja, não eram pacientes comuns com acesso ao implante em consultas de rotina. Não registra, tampouco, que a prótese ainda não está no mercado, dependendo tanto de uma empresa que decida investir nela, quanto da autorização da Anvisa para essa comercialização.

Simone Brandão nos conta que, desde a publicação da reportagem, só o que tem feito é responder mensagens de pessoas interessadas no tratamento. Algumas dessas pessoas perguntam quanto custa a prótese, dispostas e capazes de pagar qualquer valor; muitas perguntam ansiosas quando o tratamento estará disponível no SUS; e, para outras, a pesquisadora tem de explicar que, mesmo quando estiver disponível, o implante infelizmente não será uma solução.

Felizmente, neste caso, temos pesquisadores claramente comprometidos com o destino do conhecimento que produziram e interessados em tornar esse conhecimento e suas aplicações acessíveis. Simone está muito contente com a repercussão – apesar da surpresa e do cansaço –, pois imagina que ela facilitará a chegada da prótese às pessoas. Uma empresa, inclusive, já havia demonstrado interesse, e a comprovação da demanda pode tornar mais fácil a decisão de produzi-la. A pesquisadora tem se dedicado a responder as mensagens uma a uma, dizendo que não pode prever uma data, mas que, quando ela chegar, voltará a entrar em contato.

No entanto, nem sempre teremos essa disponibilidade e, além disso, muitas vezes a distância entre a expectativa criada e a realidade é bem maior do que a que existe neste caso. Por isso, nunca é demais refletir sobre cuidados necessários e abordagens mais ou menos adequadas às pautas de Saúde. Nesta semana, uma outra notícia afirmou que o brasileiro sabe pouco sobre diabetes, relembrando que uma outra reflexão muito útil seria sobre como aprender com casos como o da prótese ocular quais fatores podem tornar célebre aquilo que precisamos que seja conhecido.

Para quem se interessou pelo debate, na preparação desta edição de Mídia e Ciência conheci o “Observatório Saúde na Mídia” da Fiocruz, que justamente analisa como produções jornalísticas produzem sentidos sobre a Saúde.

Boas leituras, e uma ótima semana!

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