Notícia sobre reprodutibilidade da pesquisa biomédica brasileira destaca checagem, sem olhar para as causas do problema

Há alguns dias, estiveram reunidas pela primeira vez as 65 pessoas responsáveis pelas pesquisas selecionadas no edital que inaugurou as atividades do Instituto Serrapilheira, primeira instituição privada de financiamento da Ciência e da Tecnologia no Brasil, cujas ações têm, em geral, recebido grande atenção. Talvez por isso o jornal O Globo tenha publicado, no dia 24, notícia sobre um desses projetos: a Iniciativa Brasileira de Reprodutibilidade, cujos principais objetivos, expressos em seu site, são estimar a reprodutibilidade da ciência biomédica brasileira e, com isso, contribuir para o aprimoramento dessa ciência.

Embora a chamada “crise de reprodutibilidade” da Ciência muito provavelmente não seja uma ideia familiar à maior parte das pessoas, a discussão não é exatamente nova. Ela ganhou fôlego a partir de um artigo publicado em 2005 pelo médico e pesquisador da Universidade de Stanford John Ioannidis, com o provocativo título “Por que a maior parte dos resultados de pesquisa publicados são falsos”. Nos anos seguintes, vários levantamentos foram feitos, mostrando como é muito mais frequente que o desejável que resultados de experimentos publicados em periódicos científicos não possam ser repetidos em novos laboratórios ou grupos, diferentes daquele que realizou a pesquisa original.

As explicações para o problema são várias, e as sugestões de caminhos para uma solução também. É quase um consenso que a má conduta científica e as fraudes, embora sejam uma questão importante, não explicam essa dificuldade de replicação de resultados. Explicações mais robustas incluem fragilidades na formação de pesquisadores – por exemplo, em relação à metodologia de pesquisa e a técnicas estatísticas – e, principalmente, a pressão por resultados positivos e pela publicação. Com isso, resultados negativos, evidências de que algo simplesmente não funciona, desaparecem, ou dados são torturados até confirmarem uma hipótese inicial. Outro problema é que os artigos apresentam somente os resultados, e não o processo pelo qual se chegou a eles, o que também dificulta a replicação, e a crítica.

Embora a existência de uma crise de reprodutibilidade pareça fato para boa parte da comunidade científica, ainda não há muitos dados empíricos que dimensionem e qualifiquem o problema. Construir esse diagnóstico em relação à pesquisa biomédica brasileira para, a partir dele, identificar boas práticas que poderiam nos ajudar a repensar modos de produzir e publicar Ciência, é justamente o objetivo da Iniciativa Brasileira de Reprodutibilidade, financiada pelo Serrapilheira, que construirá uma rede de laboratórios para tentar replicar de 50 a 100 experimentos na área já realizados no País e publicados em periódicos.

Dizer que se quer contribuir para um diagnóstico mais preciso sobre a reprodutibilidade da pesquisa biomédica brasileira, no entanto, não é a mesma coisa que falar que o projeto vai “replicar experimentos de cientistas brasileiros para checar sua eficiência”, como estampa o título da notícia de O Globo sobre a iniciativa. Esse título, junto com outras passagens da matéria, confere ao projeto um ar arrogante de caça às bruxas, de juiz supremo da verdade e da mentira. Da mesma forma, buscarmos na organização atual do empreendimento científico no Brasil e no mundo as causas do problema da reprodutibilidade é bem diferente do que apontar o dedo ao cientista e dizer que ele desdenha e não quer se dedicar ao trabalho de replicação, entendendo como “mais prestigioso se concentrar em trabalhos próprios e na busca de descobertas originais”, como se esta fosse uma decisão que dependesse só dele, o que sabemos que não é.

O olhar crítico para a Ciência é, sem dúvida, fundamental e, se problemas estão identificados, é urgente buscar corrigir rumos. Mas, mais do que nunca, é preciso muito cuidado para que um discurso alarmista não resulte, em vez do avanço, em mais um ataque à Ciência e ao conhecimento especializado. Coincidentemente, no último dia 18, um artigo no site undark.org levantou questionamentos sobre um relatório sobre a crise de reprodutibilidade publicado dias antes pela Associação Nacional de Acadêmicos (National Association of Scholars) dos Estados Unidos, organização conservadora e com tendências negacionistas das mudanças climáticas. O artigo questiona se o documento é “um remédio para a Ciência ‘quebrada’ ou uma tentativa de enfraquecer a Ciência”, já que, dentre outras coisas, propõe medidas legitimadoras de políticas que ignoram evidências científicas do aquecimento global.

Eu, também, proponho aqui essa reflexão permanente, para que não nos percamos no meio do caminho, servindo a um propósito quando partimos do objetivo exatamente oposto. Para quem quiser mais detalhes da Iniciativa Brasileira de Reprodutibilidade, seu coordenador, Olavo Amaral, fez também uma apresentação online recentemente. Mídia e Ciência entra agora em férias, e eu estarei de volta na primeira semana de junho. Boas leituras, e até lá!

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