Quando observamos a produção midiática diária e sistematicamente, começamos a observar sinais de tendências futuras bastante cedo, às vezes acreditando até em algo parecido com um “dom premonitório”… No caso do noticiário brasileiro sobre Ciência e Tecnologia, o que acontece com frequência é primeiro encontrarmos um tema nos jornais e outros veículos estrangeiros; depois, vermos uma notinha perdida aqui, outra ali, primeiro em publicações especializadas, depois começando a chegar nos grandes meios brasileiros; e, por fim, passarmos algumas semanas, às vezes meses, lendo sobre o assunto quase todos os dias se assim o desejarmos.

É comum a crítica a esta prática, já que, em geral, ela se concretiza em detrimento da visibilidade da pesquisa nacional. No entanto, há um tema em relação ao qual seria ótimo que, muito em breve, reproduzíssemos aqui a presença midiática frequente que já observamos em outros países: a resistência a antibióticos, assunto ainda muito pouco falado no Brasil, considerando a sua relevância, complexidade – e urgência.

Quase paradoxalmente, o que me inspirou a falar sobre isto foi justamente a participação de uma pesquisadora brasileira em estudo relacionado ao desenvolvimento de novos antibióticos, publicado na Nature Communications no dia 3 de outubro. Vi a pesquisa noticiada na Folha de São Paulo e na Agência Fapesp, e a comparação entre os dois textos me parece importante para refletirmos sobre melhores caminhos para aproximar Ciência e público. O texto da Folha usa e abusa de metáforas e gracinhas para tentar explicar o que não deve ser simples, mas tem um resumo que pode ser bem direto: os pesquisadores encontraram um possível novo alvo para o combate a bactérias que não são mais atingidas pelos antibióticos existentes até o momento. Nada contra metáforas, analogias e humor, muitas vezes fundamentais para rompermos o hermetismo da linguagem científica e aproximarmos Ciência e a cultura cotidiana. Mas comparar os efeitos de uma braguilha (sic) aberta em humanos e bactérias, falar em bactérias “gordinhas” (ainda que entre aspas, como no texto original), e até mesmo a analogia central, com um zíper quebrado que permanece sempre fechado, são exemplos perfeitos de soluções que não só não ajudam, mas desviam a atenção e podem, inclusive, atrapalhar sobremaneira a compreensão daquilo que se pretendia explicar. Ao menos no meu caso, foi este o resultado e, assim, recomendo a leitura do texto da Fapesp.

Mas, críticas a parte, o ponto é que precisamos, como fazem essas matérias, falar da resistência a antibióticos. Precisamos, inclusive, porque o problema, além de gravíssimo, vai muito além do uso que nós, quando vítimas de alguma infecção, fazemos dos antibióticos, seguindo ou não a prescrição médica. Outros aspectos fundamentais são o uso de antibióticos na produção animal – como destaca este texto de Popular Science – e o baixo investimento da indústria farmacêutica no desenvolvimento de novos antibióticos – como vem alertando a Organização Mundial da Saúde.

O britânico The Guardian publicou recentemente um panorama bastante abrangente do que apelida de “apocalipse dos antibióticos”. O motivo do texto é a realização, em Berlim, nos dias 12 e 13 de outubro, de uma grande conferência internacional que se apresenta como uma chamada global à ação sobre infecções resistentes a medicamentos. Esta edição de Mídia e Ciência foi preparada antes do evento e, neste momento, nossa expectativa é que a conferência resulte em uma nova leva de notícias sobre o tema na mídia brasileira. A conferir…

Boas leituras, e uma boa semana.

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