Notícias são, em geral, sinônimo de novidade, e o inusitado, o surpreendente, o inesperado são o que mais chama a atenção, não aquilo que já é previsto e aguardado. No entanto, ao longo dos meses, há algumas pautas que sempre aparecem nos mesmos momentos no noticiário de C&T, como aquelas sobre doenças respiratórias no início do inverno, sobre cuidados com a pele quando o clima começa a esquentar, ou as que dominam as editorias de Ciência durante a realização de alguns grandes eventos, como as reuniões anuais da Associação Americana para o Progresso da Ciência (AAAS), no início de cada ano, e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que acontece a partir deste dia 16 na Universidade Federal de Minas Gerais.

Neste rol, também está a onipresença, nos meses de verão, das notificações de novos casos de dengue e notícias sobre as ações – ou a falta delas – de combate aos criadouros do mosquito transmissor e outras medidas – sempre mais raras – de proteção à população. Porém, desde a epidemia de zika e, também, dos casos de chikungunya, reportagens um pouco diferentes, sobre resultados de pesquisas que buscam ampliar o conhecimento sobre os novos vírus, têm aparecido também no restante do ano, inclusive porque há um deslocamento entre os surtos de infecção e a realização das pesquisas e publicação dos resultados.

Ao longo desta semana, particularmente, foram pelo menos cinco os textos relacionados ao Aedes aegypti, sendo quase todos – exceto um – sobre a zika. Como veremos, foi uma montanha russa de boas e más notícias, com uma ligeira vantagem negativa.

Na sexta, dia 7, uma primeira notícia preocupante: o Estadão, tratando de estudo da Fiocruz – publicado naquele mesmo dia no periódico Scientific Reports –, conta que mosquitos urbanos (o Aedes aegypti e, também, o Aedes albopictis) têm elevada capacidade para a transmissão do vírus da febre amarela. O Brasil, desde 1940, tem registrado apenas casos de febre amarela silvestre – ou seja, contraída através de picadas que aconteceram em regiões de mata –, mas a pesquisa da Fiocruz indica que ela pode voltar a ser uma doença urbana muito facilmente e, talvez, até mesmo já esteja sendo transmitida nas cidades. O que fazer para evitar? Intensificar o combate aos mosquitos e imunizar a população, afirmam os pesquisadores.

No sábado, dia 8, a Agência Brasil – citando quase integralmente a revista Pesquisa, da Fapesp – traz a primeira boa notícia: contrair zika após ter sofrido com a dengue aparentemente não agrava a doença, como já havia sido sugerido. O estudo divulgado agora, publicado em 20 de junho no periódico Clinical Infectious Diseases, foi o primeiro realizado com humanos; as pesquisas anteriores haviam sido realizadas com células e em roedores. Embora tenham sido apenas 65 pessoas – 35 delas com zika contraída após infecção prévia de dengue –, o pesquisador responsável afirma que, mesmo não sendo possível ainda descartar totalmente uma relação entre dengue e casos mais graves de zika, as evidências encontradas em seu estudo são fortes indícios de que ela não existe.

No dia 9, tivemos outra notícia positiva: pesquisadores da Unicamp, em matéria do G1, anunciam que identificaram biomarcadores da infecção por zika – espécie de “assinatura” do vírus, como definido na notícia – a partir de exames em 100 pessoas que tiveram a doença. O resultado pode vir a auxiliar no diagnóstico precoce, na compreensão de mecanismos como o da transmissão fetal e, também, na definição de estratégias terapêuticas. Porém, além da própria notícia ser bem confusa, aparentemente os resultados anunciados deixam, por enquanto, mais questões do que respostas.

Mas foi a segunda-feira, dia 10, que desequilibrou a balança de vez. Não faltou a boa notícia: soubemos que um estudo realizado na Universidade de Washington sugere que uma droga já existente – a hidroxicloroquina, utilizada no tratamento de malária e reumatismo – pode proteger fetos de mulheres com zika da microcefalia e outros problemas de desenvolvimento. No entanto, nas matérias publicadas no G1 e no Estadão – este último menos cauteloso em sua manchete –, os responsáveis pelo estudo pedem justamente cautela, uma vez que, até o momento, as pesquisas foram feitas apenas em culturas celulares e camundongos, restando ainda uma série de etapas a cumprir. E as más novas também se fizeram presentes: estudo publicado no periódico The Lancet – e noticiado pela Agência Brasil – conclui, em linhas bem gerais, que ainda sabemos muito pouco sobre os surtos de zika e sua relação com a microcefalia, destacando, assim, a relevância dos investimentos em controle e prevenção.

E, com isso, eu volto ao início deste texto. O Brasil luta contra o Aedes pelo menos desde o início do século passado e, em pelo menos dois momentos – em 1958 e 1973, segundo artigo sobre o histórico dessa luta publicado na revista Epidemiologia e Serviços de Saúde –, o mosquito foi declarado erradicado, apenas para reaparecer um pouco depois – em 1967 e em 1976, respectivamente. O controle do Aedes envolve um conjunto complexo de ações que deveriam ir muito além do combate aos criadouros apenas nos meses mais quentes, e a descontinuidade dessas ações, assim como a intermitência na presença do Aedes e doenças relacionadas na mídia e, consequentemente, no imaginário da população, nos deixam neste movimento de eterno retorno, no início de cada ano, à escalada de casos reportados. Nas notícias acima, lemos sobre diagnóstico e tratamento, mas quase nada sobre prevenção, o que pode ser um sintoma dos rumos equivocados que vimos tomando. Mas sempre é tempo de rever prioridades e mudar a direção.

Na semana passada, eu acabei não registrando a volta do físico Marcelo Gleiser às páginas dominicais da Folha de São Paulo. Fica aqui então, como a dica de leitura de hoje, a segunda edição da sua coluna “Horizontes”, que nos lembra justamente de tudo aquilo que não sabemos, e talvez nunca venhamos a saber.

Boa leitura, e boa semana.

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