Que alguma coisa está fora da ordem não é exatamente novidade, mas mesmo assim não deixa de causar espanto saber que o dirigente da Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos Estados Unidos comunicou, em reunião com lobistas da indústria do carvão e aliados, sua mais nova estratégia para questionar as evidências das mudanças climáticas e de suas origens na atividade humana.

Proteção ambiental parece não combinar com indústria do carvão e negação do aquecimento global… Mas tudo isso esteve junto junto no último dia 29 de junho, quando o dirigente da EPA, Scott Pruitt, falou à Coalizão Americana para Eletricidade a Carvão Limpa sobre sua estratégia de “time vermelho, time azul” para revisão da ciência do clima fora do mecanismo tradicional de revisão por pares que caracteriza a produção do conhecimento científico.

O conceito de “time vermelho, time azul” é inspirado em exercícios militares em que, fundamentalmente, uma equipe ataca algo, um alvo que precisa ser defendido pela equipe oponente.  Aparentemente, como registra o The New York Times, a afirmativa de Pruitt resulta de uma proposta feita em abril, no The Wall Street Journal, pelo físico Steven Koonin. Foi Koonin quem sugeriu a formação de um “time vermelho” de especialistas dissidentes do consenso sobre a origem antrópica do aquecimento global, para criticar os principais relatórios sobre as mudanças climáticas. Posteriormente, essa crítica seria comentada por um “time azul” de cientistas que sustentam o consenso, em um movimento de idas e vindas que se desenrolaria às vistas da opinião pública.

Essa sugestão – de uma espécie de gincana pública da ciência climática – me parece partir do pressuposto de que quaisquer opiniões são igualmente válidas, e que a melhor solução seria aquela escolhida pela maioria do público espectador dessa queda de braço entre posições distintas. Como assisti recentemente ao blockbuster “O Círculo”, pensei que o filme traz uma visão semelhante, de uma “democracia direta” em que, da solidão de nossos smartphones, escolheríamos as melhores soluções para a Humanidade simplesmente apertando um botão e manifestando, justamente, nossas opiniões, e desejos.

Eu também defendo a participação cada vez maior da população em todos os processos de tomada de decisão e, em particular, naqueles envolvendo a Ciência e Tecnologia. Porém, essa participação vai muito além de expressarmos opiniões construídas na solidão de nossas existências individuais. Pensar sobre essa participação envolve não apenas reconhecer as imensas desigualdades existentes no acesso e nas possibilidades de interpretação da informação, mas também o fato de que nem todos teremos sempre todas – ou as melhores – informações. Assim, entendo que a questão está muito relacionada também às condições que temos para julgarmos em quais fontes de informação confiamos, muitas vezes mais até do que ao conhecimento específico do qual dispomos.

Por isso, inclusive, é importante o conhecimento sobre como a Ciência funciona e, neste caso específico, sobre o processo de peer review – revisão por pares –, fundamental na compreensão da natureza do processo de construção do conhecimento científico e, também, do funcionamento da chamada “comunidade científica”. Dois artigos bastante interessantes, um do site do Times Higher Education e o outro publicado na Nature, concordam que o peer review tal qual conhecemos hoje é muito mais recente do que pensamos, tendo se tornado comum entre os periódicos científicos apenas após a Segunda Guerra Mundial. Mais cedo, o que tivemos foram editores consultando colegas para tomarem suas decisões e, depois, comitês de especialistas; mas é só no Século XIX que sociedades científicas começam a solicitar pareceres avaliativos aos tais “pares” – especialistas do mesmo campo do trabalho em análise –, prática depois disseminada entre os periódicos independentes e que, em algum momento (por volta da década de 1970, segundo o texto na Nature), adquire conotação de “prova além de qualquer dúvida razoável”.

Tal conotação merece crítica, e os artigos questionam essa posição “sagrada”, trazendo reflexões sobre questões como viés, objetividade e as possibilidades e limites do julgamento de confiabilidade e importância. A Nature, mais uma vez, traz também uma observação de grande relevância para pensarmos sobre o tema neste nosso contexto, registrando que momentos cruciais na história da revisão por pares – de valorização ou, por outro lado, de questionamento – aconteceram justamente quando o status público da Ciência estava sendo renegociado.

Sem dúvida é um desses momentos que vivemos atualmente. Não estou entre os que defendem uma ideia de “método científico” infalível e inquestionável, ou que apenas a Ciência tem direito a voz naqueles debates em que ela tem algo a dizer. Porém, o conhecimento científico e a forma como ele é produzido têm dado evidências robustas ao longo de mais de um século dos seus potenciais de compreensão do mundo que nos cerca. Se há falhas e/ou vieses em casos específicos, essas falhas e vieses devem ser questionados levando essa história em consideração, e não com uma brincadeira de criança. Ou vamos, agora, também criar times vermelhos e azuis para debater se a Terra é redonda, gira ao redor do Sol e é habitada por seres resultantes do processo de evolução?

Boas leituras, e uma ótima semana de reflexão!

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