SG-MEM-04 – Caminhos do Conhecimento: a experiência de um museu virtual e ao ar livre nos espaços de produção da ciência

Autores

Tárcio Minto Fabrício1, Mariana Rodrigues Pezzo1 e Adilson Jesus Aparecido de Oliveira1,2

Instituições

  1. Laboratório Aberto de Interatividade para a Disseminação do Conhecimento Científico e Tecnológico (LAbI) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar); 2. Departamento de Física (DF) da UFSCar

País

Brasil

Palavras-chave

Espaços educadores, Museu de Ciências, Museu virtual

Resumo

O museu “Caminhos do Conhecimento”, desenvolvido pelo Laboratório Aberto de Interatividade para a Disseminação do Conhecimento Científico e Tecnológico da Universidade Federal de São Carlos (LAbI – UFSCar), oferece outras possibilidades de mediação entre diferentes públicos e o conhecimento científico, para além das já consolidadas em museus e centros de ciência tradicionais. A abordagem utilizada na concepção do museu amparou-se em muito nos referenciais das Cidades Educadoras e da educação com enfoque CTSA, na medida em que foca seu olhar no potencial educativo dos espaços – em especial aqueles que possibilitam compreensões, reflexões e experiências mais aprofundadas das complexas inter-relações entre Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente – e em suas representações sociais.

Para tanto, o projeto propõe itinerários sobre as ciências a serem percorridos no campus da Universidade. Tais itinerários são indicados por placas de sinalização do projeto que, além de apresentarem textos de grandes cientistas e pensadores, contêm QR codes (códigos gráficos que direcionam a sítios na Internet) que permitem o acesso – com o uso de dispositivos móveis, como celulares e tablets – a conteúdos em vídeo e textos produzidos exclusivamente para o museu, relacionados às áreas científicas dos locais onde se encontram. Ao acessar o código pela primeira vez, o aplicativo do projeto inicia um guia pelo itinerário escolhido, indicando os próximos pontos a serem visitados. O museu também prevê o oferecimento de visitas guiadas, nas quais os participantes podem visitar os laboratórios da Universidade, conhecendo, para além de onde e de como a ciência é produzida, quem a produz. O primeiro itinerário, já em funcionamento, é denominado “Trilha Epistemológica” e passa por 17 pontos narrando a história das diversas áreas de conhecimento presentes na Universidade. O próximo itinerário a entrar em funcionamento será a “Trilha da Luz”, que deverá passar por 6 pontos.

Os itinerários e seus conteúdos também podem ser acessados pela Internet (www.caminhos.ufscar.br).

Introdução

Museus e Centros de Ciências têm historicamente exercido um importante papel educativo ao se constituírem como espaços privilegiados para o oferecimento de práticas de ensino não formais, como nos aponta Jacobucci (2008). Entretanto, embora tais espaços permitam novas e diferenciadas possibilidades de leitura do mundo, não restritas unicamente ao conhecimento institucionalizado e meramente instrumental (Trilla, 1996), cada vez mais apresentam um viés estritamente pedagógico, como sendo uma extensão da própria escola. Esse aspecto tem sido motivo de preocupação e de alerta quanto a uma completa escolarização de tais espaços (Queiroz et al, 2002; Vieira, 2005), o que faria com que perdessem seu caráter gerador de leituras para reduzi-los a reprodutores do conteúdo formal de ensino.

Outro aspecto a ser observado com olhar crítico em relação aos Museus e Centros de Ciências tradicionais diz respeito ao papel de centralidade no processo formativo que é atribuído aos fenômenos e objetos. Tal centralidade se justifica quando esses fenômenos ou objetos apresentam características únicas ou, também, quando não são de fácil acesso. Entretanto, como já apontávamos em outra ocasião (Fabrício et al, 2013) em geral,  a maioria desses fenômenos e objetos não apresentam tais singularidades e, assim, estão apenas deslocados de seu local de origem, oferecendo, portanto, uma semi-experiência formativa. Por fim, as abundantes somas de recursos financeiros necessários à construção de espaços para alocação de Museus e Centros de Ciências e a formação, contratação e manutenção de equipes para essas instituições têm ampliado a necessidade do desenvolvimento de propostas inovadoras que permitam a implementação de novos projetos com baixo custo voltados à difusão e à educação científica.

É justamente em resposta a tais questionamentos que toma forma o projeto “Caminhos do Conhecimento”, museu ao ar livre e virtual desenvolvido pelo Laboratório Aberto de Interatividade para Disseminação do Conhecimento Científico e Tecnológico da Universidade Federal de São Carlos (LAbI – UFSCar), sobre o qual nos debruçaremos na presente comunicação.

Objetivos

O presente trabalho tem como objetivo apresentar as reflexões e questionamentos que permitiram o desenvolvimento do museu “Caminhos do Conhecimento”, seu funcionamento e, também, as primeiras impressões a partir de seu estabelecimento e início da fase de testes.

Metodologia

 A abordagem utilizada na concepção do projeto “Caminhos do Conhecimento” no sentido de permitir um avanço em relação aos modelos e práticas dos Museus e Centros de Ciência já consolidados amparou-se nos referenciais das Cidades Educadoras e da educação com enfoque CTSA, na medida em que foca seu olhar nos potenciais educativos dos espaços – em especial aqueles que possibilitam compreensões, reflexões e experiências mais aprofundadas das complexas inter-relações entre Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente – e em suas representações sociais, aproximação que discutimos em profundidade em trabalho recente (Fabrício, 2016).

A articulação entre tais perspectivas possibilita uma ruptura das “paredes” que limitam os espaços das instituições de difusão do conhecimento. Essas paredes, não necessariamente em seu sentido literal, muitas vezes acabam impondo barreiras simbólicas que dificultam o acesso do público, seja pela falta de interesse, pelo desconhecimento de sua função ou, também, pela ausência do que Chassot (2010) chama de uma “alfabetização científica mínima”, que impossibilita uma compreensão efetiva daquilo que é apresentado por tais instituições. Assim, depositamos nossos esforços no desenvolvimento de uma plataforma facilitadora dos processos de difusão do conhecimento a partir dos espaços de vivência coletiva, do cotidiano e do encontro e partilha com o outro, pois acreditamos que essa perspectiva pode fornecer oportunidades únicas de reflexão frente aos desafios impostos pela sociedade atual na concretização de uma formação efetiva em esferas de democracia plena e participativa. Isso porque a construção de nossa biografia depende diretamente das articulações sociais que estabelecemos em distintos contextos, nos permitindo apropriar, a partir de nossa experiência, significados acerca do mundo em que vivemos. Compreendida a partir de um olhar crítico e benjaminiano, tal perspectiva se aproxima à de um leitor, que ao se entregar à leitura, encontra uma multiplicidade de sentidos, abrindo novas dimensões onde supostamente se oferece apenas uniformidade (Forster, 2012).

Diante do exposto, o projeto tinha como objetivo o desenvolvimento de uma opção altenativa aos Museus e Centros de Ciências tradicionais a ser implantada em um dos campi da Universidade Federal de São Carlos, localizado no município de São Carlos – SP – Brasil. Para tanto, o projeto partiu de 3 pontos centrais: Definição dos itinerários de visitação; Elaboração e desenvolvimento da plataforma de suporte; e Produção de conteúdo específico para cada itinerário.

Resultados

A definição dos itinerários buscou o estabelecimento dos pontos de interesse para as ações de difusão, pautando-se nas especificidades das áreas do conhecimento e, ao mesmo tempo, levando em conta os aspectos físicos dos espaços do Campus, bem como a dinâmica cotidiana de seus frequentadores. Nesse sentido, foram estabelecidos para a primeira etapa do projeto 17 pontos que vão desde a Filosofia até diferentes engenharias, passando pelas Ciências Biológicas, Química, Computação e Saúde, dentre outras áreas do conhecimento. Tais pontos constituem um itinerário circular pelo Campus respeitando os caminhos prioritários para a circulação de pedestres e são identificados como: Bento Prado Júnior – Filosofia; Ramon Margalef – Limnologia; Marie Curie – Química; Charles Darwin – Ciências Biológicas; Leonardo Da Vinci – Engenharias; Ernst Ruska – Microscopia; Galileu Galilei – Astronomia; Alan Turing – Matemática e computação; Carlos Chagas – Medicina; Ana Néri – Saúde; Leon Battista Alberti – Interdisciplinaridade; Gertrude Cox – Estatística; Biblioteca de Alexandria – Acesso ao conhecimento; Albert Einstein – Física; Edmundo Navarro de Andrade – Ecologia e Conservação; Al-Qarawiyyn – Universidade; Paulo Freire – Educação.

Em cada um dos pontos localiza-se o suporte físico relacionado ao tema, como apontado na Figura 1, exemplificando o ponto Galileu Galilei:

Figura 1: Ponto Galileu Galilei localizado nas proximidades do Observatório Astronômico da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Campus São Carlos – SP – Brasil.

 A plataforma de suporte físico (placas indicativas) apresenta os nomes dos pontos, textos informativos sobre a área do conhecimento e os QR Codes (códigos gráficos que direcionam a sítios na Internet) que permitem o acesso ao suporte virtual do museu por meio de dispositivos móveis como telefones celulares e tablets. O suporte virtual foi desenvolvido para utilização em dispositivos móveis e também para aplicação web (Figura 2A), oferecendo uma interface intuitiva que apresenta os conteúdos determinados para cada ponto do museu. Na versão web (disponível em www.caminhos.ufscar.br) os interatores podem percorrer todo o itinerário do museu remotamente (Figura 2b), tendo acesso aos conteúdos determinados para cada ponto. Na versão para dispositivos móveis – iniciada a partir do primeiro acesso em algum dos códigos dos diferentes pontos (disponível em IOS e Android) –, o utilizador só pode acessar o conteúdo de cada ponto quando efetua a leitura do código com seu dispositivo. Essa estratégia foi utilizada de maneira a estimular o deslocamento pelo Campus, aproximando a experiência virtual à vivência concreta do cotidiano dos espaços de produção do conhecimento. Para além do acesso ao conteúdo virtual do Museu com a utilização dos dispositivos móveis, os visitantes podem ter acesso aos laboratórios da Universidade e conversar diretamente com alguns de seus pesquisadores. Esse acesso aos laboratórios, no entanto, é oferecido apenas nas visitas guiadas, individuais ou em grupo, agendadas com antecedência junto aos monitores do projeto. As visitas sem auxílio de monitores são livres e podem ser realizadas em qualquer horário no campus da Universidade.

Figura 2: A) Página inicial da plataforma web. B) Mapa indicando a localização dos pontos e os caminhos pelo Campus da Universidade.

Por fim, a produção de conteúdos específicos baseou-se nos itinerários de forma a auxiliar a construção de narrativas sobre os conhecimentos presentes nos espaços apontados, constituindo-se como o que denominamos “trilhas”, que guardam suas especificidades mesmo quando da utilização de pontos e espaços comuns a outros itinerários. Ao optar por uma das trilhas, sempre que o interator ativa um novo ponto – seja na versão web ou na versão móvel – tem acesso direto ao vídeo daquele ponto relacionado diretamente à trilha que está percorrendo (Figura 3A).

Figura 3: A) Página com acesso direto ao vídeo específico do ponto da trilha escolhida pelo visitante. B) Página com conteúdo em texto e links para acesso ao conteúdo adicional sobre o ponto escolhido.

Após o acesso ao vídeo, o visitante pode optar por seguir adiante até o próximo ponto da trilha ou pode acessar material em texto (Figura 3B) que aprofunda o tema apresentado em vídeo e também oferece uma extensa lista de materiais complementares, como outros textos e vídeos, também produzidos pelo LAbI – UFSCar, relacionados ao tema discutido no ponto naquela trilha específica. No endereço www.labi.ufscar.br/2017/07/01/caminhos/ disponibilizamos um vídeo sobre o funcionamento do projeto.

O primeiro itinerário, já em funcionamento na versão beta, é denominado “Trilha Epistemológica” e passa por todos os pontos do projeto narrando a história das diversas áreas de conhecimento presentes na Universidade. O próximo itinerário a entrar em funcionamento será a “Trilha da Luz”. Esse itinerário deverá entrar em funcionamento em novembro de 2017, junto ao lançamento da versão oficial da plataforma do projeto, e será destinado ao público infantil, tratando diretamente sobre como as diversas áreas da Ciência compreendem e utilizam a luz. Também estão em planejamento a inclusão de mais pontos e o desenvolvimento de mais dois itinerários, um deles destinado à Ornitologia e outro à Música. O projeto contou com auxílio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Considerações Finais

A versão beta dos “Caminhos do Conhecimento” entrou em funcionamento em 2015, durante a realização da 67ª Reunião Anual da SBPC, realizada em São Carlos. Na ocasião, mais de 200 pessoas participaram das visitas guiadas oferecendo elementos importantes para a readequação da plataforma digital que em breve deverá ser implementada. A alternativa para a estruturação do projeto tem se mostrado interessante como alternativa ao tradicionais Museus e Centros de Ciências que, como apontamos anteriormente, podem apresentar custos muito elevados, especialmente para cidades de menor porte. A partir da entrada em funcionamento da versão definitiva da plataforma serão intensificadas as atividades monitoradas, com a ampliação do número de monitores e o oferecimento de uma maior quantidade de horários disponíveis e de pesquisadores e laboratórios parceiros do projeto que se disponham a receber visitantes. Também deverão ser intensificados os esforços de divulgação do projeto, o que  o que possibilitará a realização de pesquisas mais completas sobre as impressões e percepções dos visitantes do Museu.

Bibliográfia

CHASSOT, A. (2010). Alfabetização  Científica: questões  e  desafios  para  a  educação. (5ª  ed.)  Ijui: Unijui.

FABRÍCIO, T. M. (2016).  A cidade educadora e o enfoque CTS: articulações possíveis a partir dos professores de ciências em formação. (Tese de Doutorado, Universidade Federal de São Carlos, 2016), São Carlos, Brasil.

FABRÍCIO, T. M.; PEZZO, M. R. & FREITAS, D. (2013) A cidade como espaço de educação em ciências: uma proposta de ampliação do potencial educativo de museus e centros de ciência a partir do enfoque CTS. Atas do IX Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências, 1 – 7. Recuperado em 23 de março de 2017 no endereço: www.nutes.ufrj.br/abrapec/ixenpec/atas/resumos/R0331-1.pdf

FORSTER, R. (2012) Benjamin: Uma introducción. (2ª ed.) Buenos Aires: Quadrata.

JACOBUCCI, D. F. C. (2008). Contribuições dos espaços não-formais de educação para a formação da Cultura Científica. Em Extensão, 7, n. p.

QUEIROZ, G.; KRAPAS, S.; VALENTE, M. E.; DAVID, E; DAMAS, E.; & FREIRE, F. (2002). Construindo saberes da mediação na educação em museus de ciências: o caso dos mediadores do Museu de Astronomia e Ciências Afins/Brasil. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, 2, (2), 77-88.

TRILLA, J. (1996). La educación fuera de la escuela: Ambitos no formales y educación social. Ariel: Barcelona.

VIEIRA, V. S. (2005). Análise de espaços não formais e sua contribuição para o ensino de ciências. (Tese de Doutorado, Universidade Federal de Rio de Janeiro, 2005), Rio de Janeiro, Brasil.

Laboratório Aberto de Interatividade
Holler Box