A Astronomia e a Ciência Espacial mais uma vez dominaram o noticiário nacional e internacional de C&T, depois de uma semana agitada pela descoberta dos sete planetas ao redor de Trappist-1. Primeiro foi o eclipse anular do Sol. Até domingo, com as instruções de onde, quando e como observar, e a onipresente ilustração da Nasa com o globo terrestre e o horário da sombra em cada localidade. Depois do horário previsto para o eclipse, digamos que o que passou a existir foi uma “não-notícia”, já que o tempo nublado dificultou a observação – que, de qualquer forma, já seria parcial – na maior parte das cidades brasileiras em que o fenômeno seria visível.

Imagem apontando regiões onde eclipse poderia ser visto (NASA)

A cobertura justamente do G1 ilustra bem do que estamos falando. Primeiro, às 0h12 do domingo, as instruções sobre a observação; às 11h07, a nossa não-notícia, com o título “Dia nublado decepciona quem tentou ver eclipse solar no Brasil” e uma galeria de fotos de céus nublados, em grande medida retiradas das redes sociais para destacar o fato dos internautas terem feito piada com o ocorrido; e, finalmente, às 20h02, notícia da Agência France Presse, registrando como foi a observação do eclipse na África e em outros países do Cone Sul, com a nota triste: “No Brasil, dia nublado frustrou”.

A partir de segunda, o foco voltou-se para o anúncio da empresa Space X de que fará um voo tripulado de turismo espacial para a Lua até o final de 2018. No New York Times, uma espécie de não-notícia novamente, já que o texto publicado ainda no dia 27 dedica-se principalmente às ponderações sobre a real capacidade da empresa de realizar o prometido, considerando, por exemplo, o atraso na entrega do foguete previsto para a missão – o Falcon Heavy, que está quase quatro anos atrasado – e, também, que nenhum astronauta viajou além da baixa órbita da Terra desde 1972, quando a última das missões Apollo pousou na Lua!

Sobre o tema, aliás, o mesmo NYT já havia noticiado, em 15 de fevereiro, declaração da Nasa sobre planos de alterar a primeira missão de seu novo foguete de carga pesada, o Space Launch System, para incluir astronautas já no primeiro voo – previsto para o final de 2018, mas que terá de ser atrasado caso se confirme a alteração. Já no dia 24, como noticiado aqui no Brasil pelo G1, autoridades da agência espacial americana voltaram a falar sobre o assunto, afirmando ser uma “sugestão” do Governo Trump esta mudança nos planos, no que vem sendo caracterizado como a primeira indicação das intenções de Trump no que diz respeito ao programa espacial.

Voltando à Space X, no Brasil a notícia sobre o anúncio foi publicada pela Folha de S. Paulo na quarta-feira, 1/3, em um texto de Salvador Nogueira que traz abordagem original e necessária, discutindo o turismo espacial enquanto negócio e, assim, suscitando a sempre relevante reflexão sobre relações da pesquisa científica e do desenvolvimento tecnológico com as demais esferas da ação humana.

Para concluir, três sugestões de leitura. A primeira, para permanecer na Astronomia nós também, é o editorial do NYT do dia 24 de fevereiro, sobre Trappist-1, que oferece uma visão da relevância da descoberta muito mais ampla do que manchetes relativamente sensacionalistas sobre vida extraterrestre podem dar a entender. Também vale a pena conferir o texto do El País que fala de racismo e, em menor escala, sexismo na Ciência brasileira. Embora tenha passagens confusas e exagere um pouco no paralelo com as computadoras da Nasa cuja história é retratada em “Estrelas Além do Tempo”, é sempre bom destacar quando a mídia aborda temas relevantes que – não por acaso – ainda não têm a visibilidade devida. E, por fim, como também não são corriqueiras as ocasiões em que a mídia retrata as pesquisas realizadas aqui no Brasil, registro a publicação pela Folha, na segunda-feira (27/2), de reportagem sobre estudo de arqueólogos brasileiros que querem revisitar a história oficial de ocupação da Antártida, conferindo visibilidade a trabalhadores que, até o momento, não aparecem nesses relatos oficiais e nos livros didáticos.

Boa leitura e boa semana para todos nós!

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